sábado, 24 de dezembro de 2011

NAVIDAD...NATAL...LOS COLORES DE NUESTRA AMERICA


Presépio - El Salvador



Artesanato natalício - Guatemala


Bolas para árvore de Natal - artesanato mexicano


Presépio - Nicarágua


Presépio - Equador


Presépio de Ayacucho - Peru


Retablo de Ayacucho - Peru


Presépio - Brasil





domingo, 18 de dezembro de 2011

QUIPUS, OS TEXTOS ANDINOS



Quipu - Museu Nacional de Arqueologia e Antropologia - Lima - Peru

Algumas vezes nas aulas de História da América I usei os quipus para fazer laboratórios documentais. Tratam-se de cordas com diversos tipos de nós e cores, que eram utilizadas desde os tempos pré-incaicos para contabilizar a produção agrícola e demais registros mnemotécnicos como censos, finanças, entre outros.

Geralmente, eram feitos de lã de llama ou alpaca e também de algodão e a posição dos nós e a sua quantidade é que definia o valor numérico a ser indicado. As cores simbolizavam as diferentes atividades a serem registradas.


Museu da Nação - Lima - Peru

Os antropólogos Gary Urton e Carrie Brezine da Universidade de Harvard (EUA) foram os primeiros a interpretar os quipus enquanto sistemas contábeis. 

Em 2007, participando de um congresso no Equador tive o prazer de conhecer pessoalmente o pesquisador finlandês Martti Pärssinen (Instituto Iberoamericano da Finlândia), que apresentou uma conferência instigante sobre o caráter narrativo dos quipus. Desde então, tenho propagado em sala de aula essa nova interpretação dos nós andinos, que já os primeiros cronistas espanhóis mencionavam em suas obras. Eles contavam que os Incas os utilizavam para memorizar os assuntos mais importantes relativos à população e às atividades estatais incaicas. Entre a população andina esse sistema de nós amarrados em cordas coloridas foi empregado até 1583, porque a partir desse ano seu uso foi proibido pelo III Concílio Limense.


Museu Regional de Ica - Peru

Segundo Martti Pärssinen e Jukka Kiviharju, muitos documentos encontrados hoje nos arquivos relacionados à história andina foram feitos a partir das informações coletadas junto aos quipucamayocs, ou seja, os homens que sabiam decodificar os quipus. De acordo com as hipóteses desses pesquisadores, isso demonstra que a maioria dos quipus funcionavam como um sistema ideográfico, inteligível, sem conhecimento prévio de idioma particular, havendo ainda evidências que os textos incluíam elementos fonéticos, especialmente na codificação de nomes de pessoas e na toponímia.

É uma pena que os espanhóis destruíram e queimaram grande quantidade de quipus nos séculos XVI e XVII, por acreditarem tratar-se de algo demoníaco. Nos dias de hoje contamos com cerca de 800 quipus, sendo que a maior coleção encontra-se no Museu de Etnologia de Berlim.


Museu Regional de Ica - Peru

BIBLIOGRAFIA:

ASCHER, M., ASCHER, R. Code of the Quipu: A study in media, mathematics, and culture. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1981.

PÄRSSINEN, Martti, KIVIHARJ, Jukka. Textos Andinos. Corpus de textos khipu incaicos y coloniales. Madrid: Instituto Iberoamericano de Finlandia, Universidad Complutense de Madrid, 2004, Tomo I.

URTON, Gary. Signs of the Inka Khipu. Austin: University of Texas Press, 2003.


OBS: Fotos de acervo próprio.


sábado, 17 de dezembro de 2011

LINHAS DE PARACAS


El Candelabro - Paracas - Peru

Poucos sabem que os geoglifos (vestígios arqueológicos representados por desenhos geométricos, zoomorfos e antropomorfos) feitos no deserto de Paracas são mais antigos que as famosas linhas de Nazca também localizadas na área desértica da costa sul peruana. "El Candelabro" era a figura mais conhecida até os achados recentes de mais de 50 desenhos de humanos, pássaros, macacos, gatos e um condor gigantesco encontrado em 2008. Enquanto os Paracas produziram essas figuras por volta de 500 a.C em cerimônias religiosas em homenagem aos deuses da água e da terra e à fertilidade, a cultura Nazca só produziu as suas entre 100 d.C. e 600 d.C., ou seja, bem depois. A questão é que foi difícil localizar tais desenhos porque os mesmos foram feitos nas laterais de montanhas, onde a incidência do sol dificulta a sua visão mesmo aérea.
Esses geoglifos foram feitos retirando-se pedras escuras para expor as mais claras e também usando pedras para produzir figuras em alto e baixo relevo. Quase todas as figuras Paracas eram naturais e pequenas. Já os Nazcas produziram muitas figuras estilizadas, grandes e usaram a técnica de limpar a área de pedras escuras, formando dessa forma seus desenhos em áreas planas.



Figuras de Palpa - Peru


Possivelmente o deserto ainda esconde muitos geoglifos, cerâmicas, restos arqueológicos em geral e, mesmo sendo uma apaixonada por offroad, aproveito este artigo para alertar quanto ao próximo Rally Dakar a se realizar em 2012, que entre outros lugares, tem como rota a região desértica onde encontramos as Linhas de Nazca, de Palpa e de Paracas. Como todos sabem, os pilotos participantes dessa competição tem liberdade de buscar o melhor trajeto, o que significa colocar em perigo possíveis vestígios arqueológicos ainda não descobertos.



Rota Rally Dakar 2012 (1)



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

TREPANAÇÕES: PRIMEIRAS CIRURGIAS CEREBRAIS DA AMÉRICA

A trepanação, cirurgia de cérebro, foi praticada por muitas culturas em diferentes pontos do mundo e as primeiras remontam a cerca de 40 mil anos. Exemplos de casos exitosos podem ser encontrados na cultura Paracas, que habitou a região costeira do Peru entre 700 a.C. e 200 d.C. Os crânios vistos hoje no museu da região mostram que a parte outrora aberta soldou completamente, comprovando a eficácia do procedimento cirúrgico. 




Trepanação - Museu Regional de Ica - Peru

Normalmente, o curandeiro da região era o encarregado de aliviar as dores provocadas pelo estilhaçamento dos ossos do crânio fraturado em batalhas ou também para desalojar os maus espíritos. Para tal, eles utilizavam geralmente facas de obsidiana, pinças e pequenas colheres no raspado ou serragem do crânio e para amenizar a dor anestesiavam o paciente usando bebidas feitas de ervas, em geral, a coca. A chicha, bebida fermentada feita de milho, também era amplamente utilizada para diminuir ou suprimir a dor. Ao final da cirurgia, o buraco aberto poderia ser preenchido pelo osso antes serrado ou também por uma placa de ouro. O mais incrível é que mesmo em condições precárias de higiene e técnica, a maioria dos pacientes submetidos a essas cirurgias sobreviveram.



Trepanação - Museu Regional de Ica - Peru


OBS: Fotos de acervo próprio.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"EL FUERTE", CENTRO CERIMONIAL DE SAMAIPATA NA BOLÍVIA

Quem diria que tão perto de nós está o maior monumento rupestre da América e um dos maiores do mundo. Sim, "El Fuerte", localizado próximo a Samaipata - Bolívia, trata-se de uma enorme plataforma em pedra onde culturas pré-incaicas esculpiram em alto relevo animais, como o puma e a serpente, e fizeram um complexo sistema de drenagem. Podemos encontrar também recintos que foram habitados, escadarias, nichos, poços e outras estruturas construídas em diferentes períodos e inicialmente pela cultura Chané, de origem Aruaque, e depois por algumas culturas amazônicas, andinas e chaquenhas. Posteriormente, os Incas também usaram esse espaço e os espanhóis o transformaram em um forte.





Nas proximidades de Santa Cruz de la Sierra, este monumento surpreende pela grandiosidade e pela exuberância natural do seu entorno. Declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 1998, "El Fuerte" é um dos mais importantes atrativos dessa região e data de aproximadamente 1.700 anos. Boa dica para um passeio de aventura.




sábado, 10 de dezembro de 2011

GUAMAN POMA DE AYALA E A ALTERIDADE


Em 1615, Felipe Guaman Poma de Ayala terminou de escrever sua crônica intitulada Nueva Corónica y buen gobierno[1] para o rei Felipe III da Espanha. Tratava-se de uma carta com 1.189 páginas solicitando ajuda para acabar com os males da colonização, que foram observados por ele ao longo de suas viagens pelo território andino. Visando facilitar a comunicação com seu receptor europeu, Guaman Poma adicionou 398 desenhos a sua carta, pois conforme Sabine Fritz, o diálogo no contexto da Conquista espanhola implicou na necessidade de uma mediação não só entre diferentes idiomas, mas também entre diferentes visões de mundo e distintas formas de codificação cultural (2005: 74). Guaman Poma na sua obra transmitiu pesar diante de fatos que não podiam mais ser modificados. Para tal, usou a expressão "mundo al revés" em todas as passagens que mostravam seu repúdio pela desgraça ocorrida em sua época. Para Roger Zapata, esse comportamento reflete o desencanto de Guaman Poma em relação ao Outro representado pelo europeu, o que o levou a buscar a solidariedade de seus irmãos de raça e a denunciar os maltratos recebidos das mãos de espanhóis (1992: 205).
Guaman Poma era índio puro originário de Huamanga, região hoje conhecida por Ayacucho e que fica na parte sul dos Andes peruanos. Levou uma vida itinerante e, entre outras coisas, foi auxiliar do Visitador de Idolatrias Cristóbal de Albornoz, com quem aprendeu os códigos culturais europeus. Utilizou tais códigos para obter prestígio junto aos espanhóis e poder pleitear seus direitos por ser descendente da nobreza Yarovilca, que havia antecedido aos Incas e como filho e neto de homens que haviam servido em importantes postos aos senhores Incas do Tahuantinsuyu[2] (ROLENA, 2001: 4).
Em sua crônica, Guaman Poma mencionou que o Tahuantinsuyu teria sido doado aos espanhóis, negando que os povos andinos tivessem sido dominados em uma guerra justa, e sim, que teria havido a busca do estabelecimento de relações de reciprocidade entre eles (PEASE, 1994: 317). Ele entendeu a dinâmica do mundo colonial através de estruturas mentais indígenas, procurando transformar a sociedade em que vivia.
Por ser índio ladino, ou seja, índio alfabetizado e cristianizado pelos espanhóis, nosso cronista expôs em sua carta muitas histórias bíblicas, como por exemplo, a de Adão e Eva como sendo o casal original do mundo andino. Nesse período, os homens teriam tido maior conhecimento do verdadeiro Deus e com o passar do tempo teriam deixado essa crença, tornando-se idólatras. Mesmo diante desse pensamento cristão, podemos afirmar que nosso autor não esqueceu sua identidade andina, pois sua obra trata-se de um diálogo entre dois mundos, em que essa história bíblica se confunde com a visão milenarista e cíclica do tempo andino. Assim, ele acreditava que o mundo ocidental tinha quatro idades antes de Cristo como no mundo andino antes dos Incas, ou seja, a primeira idade, a de Adão e Eva; a segunda, a de Noé; a terceira, a de Abraão; e a quarta, a de David; e Cristo simbolizaria a quinta idade, bem como, os Incas na civilização andina (YARANGA VALDERRAMA, 1991: 70).
Na primeira parte de sua crônica, intitulada a Nueva Coronica, Guaman Poma descreveu tais idades da criação dos índios; abordou a história dos reis Incas, das coyas (rainhas), dos comandantes; tratou dos meses do ano, dos ritos e cerimônias; dos enterros e das acllas (“escolhidas” para servir aos templos); da justiça, das festas e da organização do governo incaico; e por fim, escreveu sobre a conquista do Tahuantinsuyu por Pizarro e as guerras civis. Na segunda parte, com o título de Buen Gobierno, tratou dos governos dos nove primeiros vice-reis e dos grupos sociais que havia na época, como por exemplo, os religiosos, os funcionários da Audiência, os corregidores, os soldados, os encomendeiros, os curacas[3], índios comuns e escravos negros. Traçou também considerações a respeito da política colonial e propôs novas soluções.
Guaman Poma passou muitos anos escrevendo sobre seus antepassados baseado na tradição oral, que recolheu durante suas viagens por todo o Tahuantinsuyu. Discorreu sobre as primeiras gerações de índios, que segundo o cronista, eram seres que não sabiam se vestir e viviam em cavernas. Passado algum tempo, aprenderam a plantar e a irrigar a terra. Trabalharam-na e construíram casas e fortalezas. Também conheceram o ouro e a prata, que usavam para fazer enfeites. Depois de terem domesticado alguns animais, passaram a criar llamas, alpacas e guanacos, dos quais aproveitavam a lã para fazer roupa. A população multiplicou-se e conquistou toda a região andina muito antes dos Incas, os últimos governantes dessas terras antes da chegada dos espanhóis. Dedicaram-se a observar os astros para controlarem os períodos de semeadura e colheita, já que eram povos agrícolas. Segundo Guaman Poma, esses conhecimentos foram passados de geração a geração. Por serem muito trabalhadores havia comida e gado em abundância.
O hatun runa ou homem comum, ao casar-se recebia um tupu para o sustento de sua família. Maria Rostworowski num estudo sobre os sistemas de medições no mundo andino concluiu que um tupu era o lote de terra suficiente para a subsistência de um casal sem filhos (1993: 178). Guaman Poma coloca que quando nascia uma criança, esta recebia um nome e era apresentada ao ayllu (grupo ligado por laços de parentesco), que se encarregava da sua alimentação e educação, pois também tinha direito a um pedaço de terra.
Guaman Poma elogiou a administração incaica por partilhar terra entre toda a população, não deixando que ninguém ficasse sem ter onde produzir. Conforme o calendário incaico, no mês de julho, os funcionários do Inca visitavam todos os ayllus para redistribuir a terra e isso era amplamente festejado.
Naquele tempo, segundo Guaman Poma, não havia ladrões, mentira, inveja, preguiça, nem dívidas, porque havia muita justiça. Na época dos Incas cuidava-se dos pobres e fracos e não havia fome.
Guaman Poma descreveu todas as festas realizadas ao longo do ano, sendo que a principal era o Inti Raymi, que acontecia em dezembro. Era a festa do deus Sol em que se faziam muitos sacrifícios, inclusive humanos.
Este cronista relatou todas as instâncias da organização incaica, mas usou categorias européias, tanto religiosas como administrativas. Por isso, quando documentou a lista de funcionários do Inca, deu-lhes a denominação espanhola e indígena, agindo como grande tradutor do mundo andino. Por exemplo, alguns cargos como o de "Corrigidor. Tocricoc; ou o (...) Administrador. Suyuyoc"(GUAMAN POMA, 1993: 262 e 265). Isso demonstra sua preocupação em promover o encontro das duas culturas através do domínio do espanhol, do quechua, do aymara e outros dialetos que utiliza ao longo de sua carta.
Guaman Poma demonstrou que o governo dos Incas funcionava, porque ninguém podia ficar na ociosidade. Toda a população do Tahuantinsuyu tinha que trabalhar em suas comunidades e para o Estado.
Ao longo de sua crônica, aproveitou para deflagrar severas críticas aos espanhóis, expondo seu descontentamento em relação ao cotidiano colonial e pedindo soluções a Felipe III. Guaman Poma representou seu mundo não só por intermédio da escrita, mas também através dos desenhos oriundos da mescla de traços culturais andinos a concepções mentais européias. O resultado desse encontro/desencontro cultural está expresso nos desenhos que espelham os anseios de um povo em defender-se das atrocidades praticadas por uma sociedade totalmente distinta da sua. Desse modo, desenvolveu o que François Hartog chama de retórica da alteridade, pois “se a narrativa se desenvolve entre um narrador e um destinatário implicitamente presente no próprio texto, a questão é então perceber como ela ‘traduz’ o outro e como faz com que o destinatário creia no outro que ela constrói” (HARTOG, 1999: 228).
Os desenhos de Guaman Poma foram feitos com traço firme e de grande expressão. Muitos consideram que seu estilo tinha influência européia e no que se refere a seus desenhos em que aparecem santos ou ilustrações cristãs, não há o que negar. Porém, há estudos que provam que seus desenhos eram iguais aos produzidos por artesãos andinos nos keros[4] (BALLESTEROS GAIBROIS, 1978: 41). Significa que ele utilizava um estilo próprio para tentar familiarizar-se com a cultura espanhola e poder defender os índios do colonialismo e ajudar no resgate de sua identidade e de um lugar dentro da nova sociedade colonial.
Analisando alguns de seus desenhos, como por exemplo, o da portada de sua crônica, percebemos que ele distribuiu hierarquicamente a figura do Papa, que fica no alto e à esquerda, a do rei, que está ligeiramente mais abaixo e à direita e, por último, ele próprio de joelhos em postura de respeito frente à autoridade religiosa e real. Dessa maneira, ele demonstrou conhecer a distribuição de poder segundo as normas européias. No centro, ele apresentou os símbolos das coroas de Castela e Aragão e do lado esquerdo na parte inferior do desenho as suas iniciais em destaque.

Figura 1


El primer Nueva Corónica y Buen Gobierno compuesto por don Felipe Guaman Poma de Ayala · Sacra Católica Real Magestad · Su Santidad · [Monograma F.G.P] · Ayala · principe · El reino de las Indias.[5]

O episódio da conquista espanhola em Cajamarca foi descrito e desenhado em detalhes por Guaman Poma. O encontro de Francisco Pizarro e Atahualpa ocorreu em 1532 e começou com uma tentativa de reciprocidade, prática amplamente conhecida pelos Incas, mas terminou em guerra. O motivo para o início da batalha sangrenta teria sido o fato de Atahualpa ter jogado a bíblia sagrada ao chão. Ofendido, o Frei Vicente Valverde, queixou-se a Pizarro, que imediatamente ordenou o ataque. Atahualpa foi prontamente capturado e o alvoroço foi tremendo. Índios correram para todos os lados, fugindo dos tiros de arcabuzes e das patas dos cavalos e outros ficaram paralisados pelo terror. A grande maioria das pessoas que se encontrava na praça de Cajamarca, pereceu aí mesmo (XEREZ, 1985: 112-113). Na segunda figura aqui analisada, o Inca aparece em posição de destaque, pois até o momento anterior ao ataque espanhol ele ainda é o senhor dessas terras. Com o uso do interprete começam as negociações entre os grandes senhores.

Figura 2


Conquista · Atagualpa Ingá está em la cuidad de Cajamarca em su trono, Usno · Almagro · Felipe Indio, lengua · Fray Vicente [Valverde] · Usno, trono. Asiento del Inga · se sienta Atagualpa Inga en su trono[6].

Em todo o processo de encontro/desencontro cultural sempre há o grupo vencedor e o perdedor. Pizarro solicitou um resgate imensurável pela liberdade de Atahualpa, mas resolveu condená-lo à morte, mesmo depois de ter recebido todo o montante de ouro e prata que havia exigido. Atahualpa sabendo de sua sentença rogou a Pizarro por sua vida. O pedido de Atahualpa não foi levado em conta, pois Pizarro estava resolvido a solucionar todos os seus problemas, pondo fim à vida do Inca. Atahualpa foi retirado da prisão e ao som de trombetas levado para a praça, onde o amarraram a um pau. Enquanto isso, um religioso ia consolando-o e predicando-lhe, por meio de um intérprete, os ensinamentos da fé cristã. Estando ele condenado a morrer na fogueira, nos últimos instantes pediu para ser batizado, a que foi prontamente atendido e por isso, conseguiu morrer garroteado, livrando-se de ser queimado vivo. Mesmo assim, depois de cumprida a sentença, ainda lhe atiraram fogo à roupa para que se queimasse também parte da carne. Seu enterro foi assistido por Pizarro e seus companheiros, com direito a cruz e demais aparatos religiosos cristãos, sendo por fim enterrado numa Igreja, como verdadeiro espanhol (SANCHO DE HOZ, 1986: 68). O assassinato de Atahualpa, representado na terceira imagem, significou a desestruturação do mundo andino e a conquista espanhola demonstrou como a falta de conhecimento do outro pode gerar um desencontro cultural de conseqüências desastrosas, algo visível e terrível para Guaman Poma.

Figura 3


Conquista · córtanle la cabeza a Atagualpa Ingá, umanta cuchun. Murió Atagualpa en la ciudad de Cajamarca[7].

Guaman Poma também expressou suas idéias em relação aos religiosos, que na sua concepção podiam ser péssimos exemplos de comportamento, como observamos na quarta figura. Mas, por outro lado, em se tratando de jesuítas, podiam ser responsáveis por uma evangelização caridosa como a que aparece na figura cinco. Nesse ponto, sua experiência enquanto ajudante de padre jesuíta fez com que ele depreciasse o outro que pouco conhecia e interpretasse sua conduta de acordo com os pressupostos dos religiosos da Companhia de Jesus. Guaman Poma baseou-se nas histórias contadas pelos jesuítas sobre o fracasso das primeiras tentativas de evangelização. É certo, que nos primeiros tempos, os religiosos que chegaram à região andina se confundiram com soldados, visto que, conforme Lockhart, estes estavam interessados em obter ganhos econômicos e preferiam guerrear do que propagar a fé. Isso acontecia porque os sacerdotes seculares tinham menos regalias que os regulares, ganhavam pouco e acabavam por tornar-se ávidos por riquezas.
Já os frades que pertenciam a Ordens religiosas tinham o apoio de suas Congregações e vinham com planos pré-estabelecidos para desenvolver as suas missões. Algumas dessas ordens receberam encomiendas e ajuda do Estado, o que facilitou o desenvolvimento de suas tarefas no Novo Mundo ( LOCKHART, 1968: 50-56). Apesar dos confrontos entre o clero regular e o clero secular, a partir de 1610, a Companhia de Jesus conseguiu empreender sua campanha de cristianização e nosso cronista enalteceu o sucesso de tal ação catequética.

Figura 4


Padre · Muy bravo y colérico padre contra los caciques principales y contra sus indios, porque le defienden a las solteras y doncellas le mata de palos a los indios · doctrina[8].

 Figura 5


Padre · los padres de la Compañia de Jesús, santos hombres en todo el mundo, que aman y hacen caridad, y dan lo que tienen a los pobres, más en este reino · confiésame padre de todos mis pecados, no me preguntes de las guacas, idolos y por amor de Jesucristo y de su madre Santa Maria, absólveme y no me eches por la puerta, ten misericordia de mi ánima · si los dichos Reverendos Padres fuesen doctrinando evangelios, y predicasen pasiones de Jesucristo, y de la Virgen María, y de todos los santos, y día del juicio, y de la sagrada escritura, no se huirían los indios, pero tratan de si acas(...) [texto incompleto][9].

Os problemas vividos pelos grupos indígenas durante a colonização espanhola estavam ligados às ações abusivas de padres e funcionários da coroa, o que nosso cronista demonstrou ao longo de grande parte de sua obra. Ele equiparou os funcionários espanhóis a animais que apenas queriam devorar os pobres índios, pois por serem soberbos e não temerem a Deus eles achavam que podiam explorar e humilhar essa pobre gente.
  
Figura 6


Pobre de los índios, de seis animales que comen, que temen los pobres de los índios em este reino: corregidor, sierpe; amallapallay que llatana uaycho por amor de Dios rayco [no me hagas, que tengo que dar cosas tan grandes por amor de la causa de Dios]; tigre, españoles del tambo; león, encomendero; zorra, padre de la doctrina; gato, escribano; ratón, cacique principal; estos dichos animales que no temen a Dios desuellan a los pobres indios en este reino, y  no hay remedio · pobre de Jesucristo[10].

Os padres não respeitavam nem as mulheres nativas e por isso, nosso autor os denominou seres desprezíveis que não merecem ser respeitados. Junto com os demais funcionários espanhóis eles converteram a vida dos povos andinos em um verdadeiro suplício. 

Figura 7


Consideración · como el mal tratamiento de los corregidores y padres los índios e índias pobres están  en su tierra sin consideración de ello, y no temen a Dios, ni a la justicia de Su Majestad · soberbia[11].

Guaman Poma não conseguiu entender mais o seu próprio mundo, pois tudo aquilo que ele tinha como certo se inverteu com a chegada dos espanhóis. O seu olhar sobre o outro se estendeu aos demais grupos indígenas e Guaman Poma demonstrou isso através do conhecimento de diversos dialetos, bem como, dos costumes culturais desses povos, pois com tanta mudança era necessário tentar redescobrir o próprio ser andino. Sua obra mostra uma progressiva tomada de consciência da realidade indígena e, segundo Roger Zapata, aparece como um testemunho da inconformidade com o regime colonial (1992: 210).
Guaman Poma utilizou então a linguagem escrita e visual para expor seu descontentamento diante de um mundo que mal reconhecia como seu. A alteridade aparece na relação dele com espanhóis e também com os grupos andinos, pois esses dois mundos se apresentaram como fonte de descobertas e estranhamentos, visto que muita coisa havia mudado durante o período colonial e por isso, ele sempre expressava que seu mundo estava “al revés”, ou seja, virado ao contrário. Aqueles que outrora tinham sido senhores, hoje se submetiam aos agravos de “encomenderos” e de homens comuns de suas próprias comunidades ávidos por ganhos. O cronista procurou através de sua obra solicitar o auxílio do rei para acabar com esse processo de desestruturação cultural e, de certo modo, sua mensagem refletia uma necessidade de resistir e ao mesmo tempo adaptar-se ao novo para não sucumbir.

Bibliografia

ADORNO, Rolena. Guaman Poma y su crónica ilustrada del Perú colonial: un siglo de investigaciones hacia una nueva era de lectura. Museum Tusculanum Press, University of Copenhagen, and The Royal Library, Copenhagen, 2001. www.kb.dk/elib/mss/poma/presentation/index.htm
BALLESTEROS GAIBROIS, Manuel. Relacion entre Fray Martin de Murua y Felipe Huaman Poma de Ayala. In: Amerikanistische Studien. Vol.20, n.1, Bonn, 1978.
FRITZ, Sabine. Guaman Poma de Ayala como traductor indígena de textos culturales: La Nueva Corónica y Buen Gobierno. Fronteras de la Historia.Vol.10, Bogotá, 2005.
GUAMAN POMA DE AYALA, Felipe. El primer Nueva corónica y buen gobierno (1615/1616). Gl. Kgl.S. 2232, 4°. Copenhague: Biblioteca Real de Dinamarca, 1615. http://www.kb.dk/elib/mss/poma/
___________________________________. Nueva corónica y buen gobierno, editado por Franklin Pease G.Y., vocabulario y traducciones del quechua por Jan Szeminski. 3 tomos. Lima: Fondo de Cultura Económica, 1993 [1615].
GONZALEZ VARGAS, Carlos, ROSATI AGUERRE, Hugo, SÁNCHEZ CABELLO, Francisco. Sinopsis del estudio de la iconografia de la Nueva Coronica y Buen Gobierno escrita por Felipe Guaman Poma de Ayala. Historia. Vol.34, Santiago, 2001.
HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora UFMG: 1999.
LOCKHART, James. Spanish Peru, 1532-1560; a Colonial Society, London: The University of Wisconsin Press, 1968.
PEASE, Franklin. La America de la conquista; punto de vista colonial. In: CURATOLA, Marco, SILVA-SANTISTEBAN, Fernando. (eds.) Historia y cultura del Perú. Lima: Universidad de Lima/Museo de la Nacion, 1994.
ROSTWOROWSKI DE DIEZ CANSECO, Maria. Ensayos de historia andina: élites, etnías, recursos. Lima: IEP/BCRP, 1993. (Historia Andina, 20).
SANCHO DE HOZ, Pero. La relación de Pero Sancho. Buenos Aires: Editorial Plus Ultra, 1986.
XEREZ, Francisco de. Verdadera relación de la conquista del Perú. Madrid: Historia 16, 1985 [1534].
YARANGA VALDERRAMA, Abdon. La concepción del tiempo y de la historia en la crónica de Waman Puma de Ayala y su supervivencia em la región andina. In: STEGER, Hanns-Albert (Ed.) La concepción de tiempo y espacio en el mundo andino. Frankfurt: Vervuert, 1991.
ZAPATA, Roger A. “Curacas” y “Wamanis”: la dialéctica de la aceptación y rechazo del orden colonial en la “Nueva corónica” de Guaman poma. In: KOHUT, Karl (Ed.). De conquistadores y conquistados: realidad, justificación, representación. Frankfurt: Vervuert, 1992.




[1] http://www.kb.dk/elib/mss/poma/
[2] Império dos quatro quadrantes.
[3] Chefe local.
[4] Vasilhames de cerâmica pintada.
[5] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, Portada. 
[6] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA,1993, p.292.
[7] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, p.297.
[8] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, p.479.
[9] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, p.515.
[10] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, p. 565.
[11] Figura extraída do site http://www.kb.dk/elib/mss/poma/; Descrição retirada de GUAMAN POMA DE AYALA, 1993, p. 760.

OBS: Artigo publicado. PORTUGAL, Ana Raquel . Os desenhos do cronista Guaman Poma de Ayala e a discussão da alteridade. Idéias, v. 13, p. 61-80, 2006.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ETNOHISTÓRIA ANDINA



A sociedade andina sempre foi analisada por historiadores, antropólogos, etnólogos, arqueólogos e outros especialistas, com o intuito de perceber as modificações ocorridas desde a época pré-incaica até os dias atuais. Muitos lançaram mão das crônicas para obter dados etnográficos e poder entender o passado desses povos à luz da história e da antropologia. Dessa maneira, surgiu a etnohistória peruana enquanto disciplina que unia o estudo de grupos indígenas organizados de acordo com modelos ocidentais via metodologia antropológica e também histórica para entender as populações indígenas atuais como fruto de um processo histórico que as levou a uma desestruturação cultural.


Os primeiros estudos etnohistóricos sobre a região andina remontam ao século XIX, em que alguns pesquisadores estrangeiros, como Heinrich Cunow, formularam uma proposta a respeito da comunidade andina, relacionando-a com a comunidade de aldeia, acreditando encontrar na marca germânica a explicação para compreender o mundo andino descrito pelos cronistas. Porém, sua teoria se fundamentou em fontes que representavam a estrutura mental do europeu do século XVI. Sabemos, por exemplo, que o espanhol transformou o sistema político dual dos incas em uma monarquia, no entanto, nada aparece nas crônicas sobre a dualidade. O modo que temos para averiguar a existência desse sistema é a explicação dada pelos cronistas para a derrocada do Império Inca, já que no momento da conquista espanhola dois Incas disputavam o poder. Ao passarem pelo filtro europeu, as informações a respeito do mundo andino foram transformadas em categorias do século XVI, em que os espanhóis construíam um ideal imperial à luz da história de Roma, visto que esse era o modo como explicavam a própria sociedade. Um outro exemplo, é a definição da panaca[1] cuzquenha encontrada nas crônicas, que nada mais é que o modelo do genos[2] grego.


Depois de Cunow, outros pesquisadores, como Paul Rivet (duas teorias: imigração via ásia e polinésia tardia e o autoctonismo) e Alfred Métraux (camponeses atuais são os detentores da sabedoria dos antigos hatun runas), utilizaram as crônicas como fontes, porém cientes de que estas representavam um mundo pautado em preconceitos europeus. A aproximação entre antropologia e história foi muito importante para os avanços historiográficos peruanos, visto que o fato dos antropólogos terem passado a valorizar os processos de mudança social e os historiadores os comportamentos, crenças e cotidianos dos homens comuns proporcionou abordagens teórico-metodológicas interdisciplinares que valorizam fontes variadas e permitem reflexões sobre situações históricas e sistemas culturais de diferentes épocas. A definição de etnohistória como reconstrução da história de um povo sem escrita tem sido questionada, pois o intuito maior dessa disciplina é entender como os povos compreendem sua própria história. Pesquisadores peruanos e estrangeiros procuraram desvendar as especificidades das sociedades andinas partindo de releituras das tradicionais fontes andinas e de crônicas. Destacam-se pelo pioneirismo, Luis E.Valcárcel, John V. Murra, John H. Rowe, Tom Zuidema, Franklin Pease, Waldemar Espinoza e Maria Rostworowski. Esses autores influenciaram a atual historiografia peruana que está preocupada em analisar a história dos povos indígenas partindo de sua lógica e categorias. Dessa forma, é possível perceber os mecanismos de resistência do povo andino para poder sobreviver diante das adversidades do período colonial e republicano.


Os estudos etnohistóricos sobre mitos e tradições orais também são extremamente importantes, pois revelam a capacidade dos grupos indígenas para mudanças e rearticulação de valores e tradições, o que conduz a novas interpretações sobre seus comportamentos frente aos ocidentais. Um exemplo disso foi a descoberta do mito de Inkarrí, que através do simbolismo da ressurreição do corpo do Inca, representa a reconstrução da sociedade indígena. Esse fato foi interpretado de diversas formas, como movimento messiânico, milenarista ou até mesmo de repúdio ao sistema colonial.
Os pesquisadores que mais trabalharam o período colonial foram John H. Rowe, Nathan Wachtel e Steve J. Stern. Rowe possui trabalhos em que utiliza a arqueologia e a história da arte para suas análises; Wachtel trabalha descrições etnográficas em conjunto com a história desses povos para perceber o que se manteve desde o período colonial inicial até à época do vice-rei Toledo; e Stern trabalhou a região de Huamanga priorizando as alianças entre espanhóis e índios que visavam a construção de um sistema colonial vantajoso para ambas as partes. Esses estudos ajudaram a entender que os grupos indígenas foram conquistados, mas não subjugados, pois o processo de alteridade por eles vivido expressava uma negociação contínua e que por vezes, tinha rupturas demonstradas por movimentos de resistência nativa, como por exemplo, o Taqui Ongo ocorrido entre 1560 e 1565. O “ethos” andino nunca deixou de existir e era revigorado constantemente como um modo de sobrevivência, pois podia significar a solução de problemas imediatos e também a possibilidade de construção do sentimento de nação peruana.


As pesquisas etnohistóricas peruanas revelam os índios enquanto sujeitos ativos no processo de colonização, buscando concretizar seus objetivos e mostrando que eles encontraram modos de sobreviver e garantir melhores condições de vida na nova situação em que se encontravam. Por isso, é tão importante dar prosseguimento a esse tipo de estudo que estabelece uma articulação entre os processos históricos e a organização cultural desses povos, valorizando as fontes à luz da interdisciplinaridade que proporciona conhecimento sobre as relações de contato e sobre as transformações dos grupos étnicos na situação colonial.


[1] panaca - “miembros de la elite cusqueña” ROSTWOROWSKI DE DIEZ CANSECO, Maria. Historia del Tahuantinsuyu, Lima: IEP, 1988, p.201.
[2] “genos” . “Família extensa aristocrática grega, cujos membros se julgavam descender de um antepassado comum, com freqüência um semideus ou um herói mítico” CARDOSO, Ciro Flamarion S. A cidade-Estado antiga, São Paulo: Ática, 1985, p.85.

OBS: Fotos de acervo próprio.