sexta-feira, 14 de setembro de 2012

APOSTILA DE HISTÓRIA DA AMÉRICA I E BIBLIOGRAFIA



1.          AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA


Pré-História
·   Alóctones - vindos da Ásia – semelhança com mongóis;
·  Estreito de Bering – a pé na última glaciação (ação do acumulo natural de gelo sobre a superfície da terra) – 70.000 anos;
·  Polinésia – em pequenas embarcações;
· Idade do homem americano – até 1960 acreditava-se que o homem americano tinha de 12.000 a 13.000 anos; até 1980 – 50.000 anos – São Raimundo Nonato – Niède Guidon e Fabio Parenti - pedras lascadas e fogueiras de 56.000 anos;
· Fósseis americanos semelhantes a australianos – Homem de Lagoa Santa (9.000- 8.000 a.C.) – Peter Lund;
· 2.500 línguas diferentes na América antes da conquista = diferentes ondas migratórias;
· Hipóteses de povoamento – corrente asiática, corrente malaio-polinésia e corrente australiana;
· 7.000 a 3.000 a.C. – caça, pesca, coleta e cultivo; domesticação de animais;
· Desenvolvimento da tecelagem e cerâmica; cerâmica de Valdívia (norte do Equador) – a mais antiga da América – 3.500 a.C.;
·   Descoberta da América – cem milhões de habitantes – tribos nômades e que viviam de caça e pesca (esquimós – América do Norte; charruas – Uruguai; xavantes e timbiras – Brasil); vida sedentária – praticando agricultura (pueblos – América do Norte; caribes e aruaques – Antilhas e norte da América do Sul; tupis-guaranis – Brasil).

 

Mesoamérica

· Olmecas – 1ª cultura importante da mesoamérica (Golfo do México);
· 1.200 a 900 a.C. – primeiros centros cerimoniais olmecas – San Lorenzo e La Venta; já faziam terraplanagem; homens carregavam barro de longe para confeccionar pequenos tijolos; fizeram reservatórios para água (estações secas);
·  Blocos de basalto de 15 a 25 toneladas – eram utilizados para serem entalhados e polidos para fazerem as cabeças colossais, ao altares, as estelas ou outras esculturas monumentais;
· Já desenvolviam uma astronomia inicial – prova disso é o equilíbrio nas proporções (urbanismo) e a aptidão para gerir o monumental;
· Decadência cultural e política olmeca = Monte Albán em destaque (Zapotecas); Maias clássicos; Toltecas – Tula; Mixtecas, Chichimecas e os Mexicas;
· Território maia – sul do México (Península de Yucatán), Guatemala, Honduras, Belize, norte de El Salvador;
· Monte Albán – grandes santuários e pirâmides; cerâmicas; criação definitiva do sistema numérico e escrita glífica;
·  Teotihuacán – surge como o mais importante cehtro cultural e religioso = hegemonia; Pirâmide do Sol (edificada em uma única etapa);
· Florescimento maia – surge em Petén (Tikal e Uaxactún) – local pouco propício (floresta, subsolo de calcário, pouca água);
·   Maias – grandes astrônomos, matemáticos e artistas;
·  Calendário – possuíram dois – ritual de 260 dias divididos em 13 grupos de 20 dias e civil de 365 dias divididos em 18 grupos de 20 dias mais 5;
· Sistema matemático – base 20; símbolos: o ponto para a unidade, barra para o 5 e concha alongada para o zero; concepção mais antiga do zero surgiu entre os maias e povos do Ceilão;
·   Escrita – nem tudo foi interpretado;
·   Principal cidade – Tikal;
· Halach-Uinic = o homem verdadeiro – funções civis, sacerdotais e militares;
·  Hierarquia – chefe principal, sacerdotes, nobres, artesãos, guerreiros, camponeses, escravos;
·     Comércio – intenso; moeda de troca = semente de cacau;
·   Teotihuacán = mexicanização (maias passam a viver conforme o povo de Teotihuacán por causa do comércio; passam a ter homens que toma conta do comércio de Tikal e outros em Teotihuacán);
· Idade do Ouro – aumento populacional; centros cerimoniais tipo cidade-Estado; poder não centralizado; riqueza (manufatura de objetos de luxo); comércio – controle da rede comercial; desenvolvimento agrícola (plantação em pântanos, em floresta);
· Decadência de Tikal – mundo maia – 750 e 800 d.C. – enfraquecimento de Teotihuacán = decadência de todos os locais mexicanizados;
·  Declínio total – fragilidade política e cultural; grupos híbridos (mexicanização); flagelos naturais; aumento populacional = fome; invasões; guerras; desmembramento das rotas comerciais; desintegração da própria sociedade;
· Sobreviveram – Uxmal, Chichén Itzá, Cholula (centro de peregrinação Mixtexa-Puebla); Tula (Tolteca);
·    Mexicas – origem século XII – viviam em Aztlán (noroeste do México); primeiro chefe – Itzcoatl (1428-1440);
·      Língua falada – nahuatl;
·       1168 d.C. – queda de Tula e ascensão dos Mexicas;
·      rei-sacerdote – Quetzalcoatl – vários Estados compartilhavam o Planalto Central e cada um lutava pela hegemonia;
· Tríplice Aliança – Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopan – transformou-se em Confederação Mexica = pequenos Estados diversificados com várias línguas e etnias autônomas;
·   Economia – baseava-se no tributo, mercado e comerciantes;
· Sociedade – tlatoani (aquele que fala); sacerdotes, nobres, guerreiros, artesãos, comerciantes, camponeses e escravos;
·  Tecuhtli – senhor ou nobre – altas funções militares ou civis; não pagava impostos e não se ocupava da agricultura;
· Mexicatl Teohuatzin – sumo-secercote assistido por dois sacerdotes; responsável pelas funções religiosas que não se confundiam com as governamentais; também não pagavam impostos e alguns combatiam voluntariamente nos exércitos;
· Pochteca – poderosas corporações de comerciantes; detinham o monopólio do comércio exterior de luxo; representavam a elite; pequenos comerciantes = maceualtin;
·    Toltecas – nome dos artesãos; ourives; faziam mosaicos de plumas; mulheres teciam e bordavam;
·       Maceualli – camponeses; faziam parte do calpulli; prestavam serviço militar e pagavam impostos; agricultores-soldados;
·        Tlatlacotin – classe mais baixa da sociedade; prisioneiros de guerra destinados ao sacrifício por ocasião das grandes cerimônias; obrigados a trabalhar para a coletividade;
· Riqueza – a terra era a única riqueza e pertencia à coletividade; conquistas e comércio;
·    Governo – modelo Tolteca – tlatoani chefiava; pertencente à elite militar; eleito vitaliciamente e assistido por conselhos;
· Religião – disco solar = Tonatiuh; deus-guia da tribo = Uitzilopochtli; diversos deuses;
·  Conquista espanhola – 1519 – Hernán Cortez (Malinche); maus presságios; Montezuma acreditou que Quetzalcoatl estivesse voltando; alianças com inimigos dos mexicas; armamento e cavalos; guerra diferente – espanhóis queriam suas riquezas e escravisá-los; epidemia de varíola;

 

Zona Andina

· PARACAS: arte têxtil; oferendas e intercâmbio; MOCHE: pirâmide do Sol e da Lua; guerreiros; NAZCA: astrólogos; criaram o zodíaco; cerâmica policrômica; TIAHUANACO: grandes deuses antropomorfos; reino expansionista; WARI: grandes artesãos; conquista de vários territórios; mudança de camponeses para a cidade – decadência; CHIMU: Chanchán;
· Incas – organizam-se depois de derrotar os Chancas = Tahuantisuyu;
· Reciprocidade = expansão Inca (presentes em troca de trabalho; casamentos de interesse); rogar = minka;
·    Reciprocidade (grupo de parentesco) e redistribuição (Estado) = base do Império; não reciprocidade = resistência;
·      Reciprocidade = + produção e território;
·    Ayni = ajuda mútua; Minka = curacas/ayllu (comunidade); Mita – comunidade/Estado;
·  Terra – importante; agricultura; técnicas de irrigação; andenes; controle vertical;
·   Pecuária – criação de llamas e alpacas;
·   Mineração – ouro e prata;
· Sociedade – Inca (chefe principal); nobres (panaca); sacerdotes; artesãos; camponeses; yanas (servos);

BIBLIOGRAFIA A
BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.I.
CARDOSO, Ciro Flamarion S. América pré-colombiana. 2.ed. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1982.
CARRASCO, Pedro et al. Estratificación social em la Mesoamérica prehispánica. México: Instituto Nacional de Antropología e Historia, 1976.
CASTELLI, Amalia, PAREDE, Marcia Koth, PEASE, Mariana Mould de. Etnohistoria y antropología andina. Lima: Centro de Proyección Cristiana, 1981.
COE, Michael D. The Maya. New York: Praeger, 1966.
FAVRE, Henri. A civilização inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.
GENDROP, Paul. A civilização maia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.
GIBSON, Charles. Los aztecas bajo el dominio español (1519-1810). México: Siglo Veintiuno, 1967.
LEÓN-PORTILLA, Miguel. A mesoamérica antes de 1519. In: BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.I.
MEGGERS, Betty. América Pré-Histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MURRA, John. As sociedades andinas anteriores a 1532. In: BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.I.
PEASE, Franklin. Del Tawantinsuyu a la Historia del Perú. Lima: IEP, 1978.
SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.
STEWARD, H. Julian. Handbook of South American Indians. New York: Cooper Square Publishers, INC, 1963. v.2: The Andean Civilizations, edited by Julian H. Steward.

BIBLIOGRAFIA B
ANTON, Ferdinand, DOCKSTADER, Frederick J. L'Amérique précolombienne. Trad. Dominique Bleler. Lausanne: Éditions Rencontre, 1969 (L'Art du Monde, 2).
BERNAND, Carmen (Comp.). Descubrimiento, conquista y colonización de América a quinientos años. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes/Fondo de Cultura Económica, 1995.
FUENTES, Carlos. El Espejo Enterrado. México: Fondo de Cultura Economica, 1992.
LEÓN-PORTILLA, Miguel. A conquista da América vista pelos índios. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América; a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
VAINFAS, Ronaldo (Org.). América em tempo de conquista. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
WACHTEL, Nathan. Sociedad e ideología; ensayos de historia y antropologia andina. Lima: IEP, 1973.
_________________. Los vencidos; los indios del Peru frente a la conquista española (1530-1570). Madrid: Alianza Editorial, 1976a.

FONTES

ACOSTA, José de. Historia natural y moral de las Indias. In: Obras del Padre Jose de Acosta. Madrid: BAE, 1954 [1590].
ARRIAGA, Pablo José de. Extirpación de la idolatría del Pirú,. In: Crónicas peruanas de interés indígena. Madrid: BAE, 1968, [1621], v.209.
ÁVILA, Francisco de. Dioses y hombres de Huarochirí. Trad. José Maria Arguedas. Lima: IEP, 1966 [1598?]
BETANZOS, Juan de. Suma y narración de los Incas. In: Crónicas peruanas de interés indígena. Madrid: BAE, 1968, [1551], v.209.
BLAS VALERA In: GARCILASO DE LA VEGA Inca. Comentarios Reales de los Incas. Lima: FCE, 1991 [1609], 2t.
CIEZA DE LEÓN, Pedro de. Crónica del Perú. Lima: Pontificia Universidad Católica del Perú, 1991 [1553], 4 v.
COBO, Bernabé. Historia del Nuevo Mundo. Madrid: BAE, 1964 [1653].
FERNANDEZ DE OVIEDO, G. Historia general y natural de las Indias. Madrid: BAE, 1959,[15_?], v.III.
GARCILASO DE LA VEGA, Inca. Comentarios Reales de los Incas. Lima: FCE, 1991 [1609], 2t.
GARCILASO DE LA VEGA, Inca. Dialogo de amor de Leon Hebreo. Sevilla: Padilla Libros, 1989.
GUAMAN POMA DE AYALA, Felipe. Nueva coronica y buen gobierno. Lima: FCE, 1993 [1615] 3 t.
LANDA, Diego de. Relación de las cosas de Yucatán. México: Porrúa, 1966.
LAS CASAS, Bartolomé de. Apologética historia sumaria. Madrid: BAE, 1958 [1550], vols. 105 e 106.
LÓPEZ DE GÓMARA,.F. Historia general de las Índias. Madrid: BAE, 1946 [1552?].
MATIENZO, Juan de. Gobierno del Perú. Edition et Etude préliminaire par Guillermo Lohmann Villena. Paris/Lima: IFEA, 1967 [1567].
MOTOLINIA, Toribio. Historia de los indios de Nueva España. Barcelona: Juan Gili, 1914.
PACHACUTI YAMQUI SALCAMAYGUA, Joan de Santa Cruz. Relacion de antiguedades deste reyno del Piru. Estudio Etnohistórico y Linguístico de Pierre Duviols y César Itier Cuzco: CERA, BLC/IFEA, 1993 [1613].
PIZARRO, Pedro. Relacion del descubrimiento y conquista de los reinos del Peru. Lima: PUCP, 1978 [1571].
POLO DE ONDEGARDO, Juan. Informaciones acerca de la religión e gobierno de los incas. In: URTEAGA, Horacio H. CLDRHP. Lima: Imprenta y Librería San Marti, 1916 [1571], t.III e IV.
SAHAGÚN, Berbardino de. Historia general de las cosas de Nueva España. México: Porrúa, 1985.
SARMIENTO DE GAMBOA, Pedro. Historia de los Incas. Madrid: Miriguano Editores, 1988 [1572].
TITU CUSI YUPANQUI, Inca. Instrucción al licenciado don Lope García de Castro. Lima: PUCP, 1992 [1570].
TOLEDO, Francisco de. Libro general de la visita del virrey don Francisco de Toledo, 1570-75. In: ROMERO, Carlos A. Libro General de la visita del Virrey don Francisco de Toledo. Revista Historica, Lima,  v.VII, 1924.
XEREZ, Francisco de. Verdadera relación de la conquista del Perú. Madrid: Historia 16, 1985 [1534].
ZARATE., Agustín de. Historia del descubrimiento y conquista del Perú. Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 1965.


2.          CONQUISTA E COLONIZAÇÃO

DESCOBRIMENTO DO NOVO MUNDO

ü    Unificação de Portugal e Espanha – união contra os muçulmanos: GUERRA DA RECONQUISTA
ü    CONDADO PORTUCALENSE formado por Henrique de Borgonha e posteriormente por seu filho Afonso Henriques (1143);
ü    Reis Católicos – 1469: casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela = UNIFICAÇÃO;
ü    Reino de Granada – último reduto árabe;
ü    Grandes conquistas – favoreceram a integração de interesses do rei e burguesia – maior arrecadação de impostos; a comunhão desses interesses = EXPANSÃO MARÍTIMA
ü Baixa Idade Média – cidades italianas controlavam o Mediterrâneo; crise no séc. XIV (Guerra dos Cem Anos (Inglaterra e França), peste negra e limitações do sistema feudal) = crise do comércio europeu: rotas terrestres e fluviais inseguras; também tinham que pagar tarifas aos senhores feudais;
ü Portugal – ponto de escala e abastecimento para mercadores italianos e flamengos = ascensão do grupo mercantil português;
ü Dinastia de Avis – desenvolvimento do comércio para o progresso do país e fortalecimento do Estado; criação da Escola de Sagres  dirigida pelo infante D. Henrique;
ü Grandes Navegações – crise do feudalismo; esgotamento das minas européias; preço elevado das mercadorias orientais;
ü Nova rota para o oriente – início da Expansão Marítima;
ü Quadro político europeu antes das grandes navegações: Espanha – dificuldades internas e externas; Inglaterra e França – Guerra dos Cem Anos; Sacro Império – fragmentado em vários reinos alemães e em repúblicas italianas; Província dos Países Baixos – também fragmentados;  Portugal – reunia as condições para iniciar a expansão ultramarina; grupo mercantil próspero; governo forte de acordo com o grupo mercantil; localização privilegiada em relação ao Atlântico; unidade e estabilidade; conhecimentos técnicos;
ü Início da Expansão Portuguesa – 1415, tomada do entreposto comercial árabe – CEUTA; depois Açores; cruzaram o Cabo do Bojador (Gil Eanes); ilhas de Cabo Verde; foz do rio Zaire; Cabo da Boa Esperança (Bartolomeu Dias); Vasco da Gama chega a Calicute na Índia (1448); Cabral chega ao Brasil;
ü Problema – não possuíam organização financeira = dependência em relação às companhias comerciais holandesas e italianas; riquezas obtidas por Portugal diluíram-se pela Europa;
ü Espanha – 1492 – fim do domínio árabe e da divisão interna; patrocínio  da viagem do genovês Cristóvão Colombo - chegou à ilha de Guanahani (San Salvador); Venezuela; rio Amazonas; Cuba; Flórida; Pacífico; rio da Prata; México; Peru e etc;
ü Conflitos – espanhóis e portugueses brigavam pela posse das terras descobertas ou por descobrir; Tratado de Toledo – 1480: terras descobertas ao sul das ilhas Canárias seriam portuguesas (Portugal assegurava a rota das Índias pelo sul da África); Bula Intercoetera – 1493: partilha do mundo entre portugueses e espanhóis; Tratado de Tordesilhas – 1494: 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, possibilitando a conquista de terras no Atlântico ocidental por portugueses;
ü Colonização da América – Portugal e Espanha; metalistas: vinham em busca de metais preciosos;
 
PERÍODO COLONIAL
·  Carlos V – imperou até 1556 e foi o grande conquistador; abdicou em favor de seu filho Felipe II, que não foi mais que um funcionário civil = período de crise;
· Responsáveis pela conquista – populares (fidalgos e cavalheiros); esforço privado;
· Capitulação – título jurídico entre Coroa e o chefe da expedição de descobrimento, dando direitos a este sobre as terras descobertas e aos demais participantes nessa empresa;
·  Adelantado (governador) – título concedido ao chefe da expedição; caráter vitalício ou hereditário; ele podia dividir terras e também fazer “repartimientos de indios”; erigir fortalezas e fazer parte dos cargos de chefia nas cidades de sua jurisdição;
·       Pessoas proibidas – não podiam participar das expedições: descendentes de mouros ou judeus, hereges reconciliados ou castigados pela Inquisição, os negros e os ciganos;
·   Encomienda – um grupo de famílias de índios com seus próprios chefes ficava submetido à autoridade de um espanhol “encomendero”, este tinha a obrigação de protegê-los e cuidar da sua evangelização com o auxílio de um padre; tinha o direito de beneficiar-se com os serviços pessoais dos índios; para com o rei contraía o compromisso de prestar serviço militar quando fosse solicitado; essas encomiendas tiveram caráter temporal ou vitalício e ao término esses índios eram incorporados à Coroa;
·          1542 – leis protetoras dos índios geraram muitos conflitos;
·   Reducciones – os índios não repartidos em encomiendas foram reagrupados em reduções sob a chefia de seus próprios caciques para que não vivessem vagando e para serem doutrinados (mão-de-obra); mais tarde, chamou-se as reduções de corregimientos (corregidor de pueblos de índios);
· Reduções e corregimientos – núcleos de populações indígenas incorporadas pela Coroa;
·        Tributo – era pago em dinheiro ou espécie (frutos da terra das distintas comarcas); pagavam tributo índios de 18 a 50 anos; isentos os caciques e seus filhos mais velhos, mulheres e yanaconas; visitadores eram responsáveis pela cobrança dessas taxas;
·   Virrey (vice-rei) – caráter estatal; davam as “instrucciones” para o desempenho das atividades públicas a governadores e outros funcionários da administração, dependentes de sua autoridade;
·       Sociedade – aristocracia, pequenos agricultores e artesãos, mestiços, criollos, índios e negros.


COLONIZAÇÕES AMERICANAS

INGLESA
ü  Início do processo colonial – Elizabeth I (1558-1603); construção naval, comércio marítimo e a atividade corsária;
ü    Conflitos com a Espanha – derrota da Invencível Armada espanhola em 1588;
ü    Colonização da América do Norte – Walter Raleigh em 1584, 1585 e 1587;
ü    Século XVII – a atividade colonial inglesa edificou-se com a derrocada da Espanha e a criação das Companhias de Comércio; aliança entre Estado e burguesia; excedente populacional resultante do processo dos cercamentos na Inglaterra; conflitos político-religiosos (emigração de puritanos e quakers);
ü    Treze colônias – ao norte: economia autônoma, mercantil e manufatureira, não dependente da metrópole; ao sul: economia agrícola, que produzia só para o mercado externo;
ü    Virgínia – primeira colônia; grande produtora de tabaco;
ü    Plantation – monocultura praticada em grandes propriedades e com a utilização de mão-de-obra escrava e destinada ao mercado externo; característica das colônias do sul, chamadas colônias de exploração; produção de arroz e algodão;
ü Nova Inglaterra – predominaram os colonizadores provenientes de perseguição político-religiosa: puritanos (primeiro navio – Mayflower: fundaram Plymouth); colônia de povoamento: a ocupação baseou-se na pequena e média propriedade agrícola; diversificou-se a produção e implementou-se a manufatura e o comércio;
ü    Norte – evolução econômica; sul – decadência;
ü Século XVIII – Inglaterra atinge o apogeu; ampliou as restrições econômicas e a tributação; Guerra dos Sete Anos (1756-1763); resultado: Independência dos EUA em 1776;

FRANCESA

v    Século XVII – iniciou-se durante o governo absolutista dos Bourbons, sob orientação dos ministros Rochelieu e Colbert;
v    Primeiro local colonizado – Canadá; extrativismo (madeiras e peles) e comércio com os indígenas;
v    Colonizaram faixa interior dos Grandes Lagos ao México, área denominada Louisiana (homenagem a Luís XIV); algumas ilhas das Antilhas;
v    Século XVIII – Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1713) e Guerra dos Sete Anos (1756-1763): perderam várias colônias: Revolução Francesa (1789) e as guerras napoleônicas; o Canadá foi perdido para a Inglaterra ao final da Guerra dos Sete Anos e a Louisiana para os EUA;

HOLANDESA

Ø  Países Baixos – começaram a atuar em meio à luta de independência contra a Espanha, no século XVI;
Ø  Tratado de Vestfália – 1648 – constituíram uma república autônoma;
Ø Companhia das Índias Orientais (1602) – explorava o comércio com a África e a Ásia;
Ø     Companhia das Índias Ocidentais (1621) – comércio com as regiões americanas; nesse período invadiram o Nordeste brasileiro (1624-1625 e 1630-1654);

AMÉRICA SÉCULO XVII

ü  Dinastia de Habsburgos – Carlos V e Felipe II – grande quantidade de metais = inflação = menor competitividade internacional espanhola – grande Império de difícil administração;
ü    Ascensão de Felipe II ao trono português – 1580 = aumento de poder espanhol e também de problemas; holandeses – inimigos;
ü    Vice-reis do México e Peru passaram a reter impostos para defender costas contra ação de corsários = aumento de custos com defesa do Império – Século XVII = crise entre Espanha e América; diminuição de rendas americanas e invasão do Brasil pelos holandeses;
ü  Linhas de comunicação frágeis, recursos limitados, crises externas com Ingleses, Holandeses e também com a América, separação de Portugal em 1640 = desintegração da monarquia espanhola;
ü    Coroa distante e falida = expansão do poder das oligarquias da América;
ü    Disputa de poder entre dinastia dos Habsburgos e dinastia dos Bourbons = disputa pela hegemonia política na Europa;

AMÉRICA SÉCULO XVIII

ü  Século XVIII – dinastia dos Bourbons – Carlos II morre e começa a disputa pelo trono espanhol; Filipe de Anjou, neto de Luís XIV, recebeu o apoio de Castela e Carlos de Áustria era apoiado pela Inglaterra, Holanda, Portugal e uma parte de Castela; mas, os franceses conseguiram assegurar sua vitória; ao renunciar ao trono espanhol, Carlos de Áustria recebeu alguns territórios, como por exemplo, os Países Baixos;
ü  Felipe V assume e implanta um Estado absolutista = revolução administrativa = concessão de títulos a servidores de confiança com o intuito de fortalecer sua própria autoridade; consegue equilibrar as atividades comerciais; prata vinda do México;
ü    Independência dos EUA (1776) e Revolução Francesa (1789-1799)– crise do Antigo Regime;
ü  Guerra dos Sete Anos (França e Inglaterra) – disputa por mercados e áreas coloniais; França necessita neutralizar poder inglês: Bloqueio Continental; José Bonaparte assume o trono espanhol; luta de espanhóis contra franceses e guerrilhas pelo resto da Europa = enfraquecimento do poder de Napoleão e também cria  condições para que as colônias latino-americanas comecem seus processos de independência;

BIBLIOGRAFIA
BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.I e II.
BERNAND, Carmen (Comp.). Descubrimiento, conquista y colonización de América a quinientos años. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes/Fondo de Cultura Económica, 1994.
BETHENCOURT, Francisco. Competição entre impérios europeus. In: BETHENCOURT, Francisco, CHAUDHURI, Kirti. História da expansão portuguesa. Navarra: Círculo de Leitores, 1998, v.2.
BONILLA, Heraclio. El Sistema Colonial en la America Española. Barcelona: Editorial Crítica, 1991.
CAPDEQUI, J.M. Ots. El estado español en las Indias. México: El Colegio de México, 1941.
CHAUDHURI, Kirti. O império na economia mundial. In: BETHENCOURT, Francisco, CHAUDHURI, Kirti. História da expansão portuguesa. Navarra: Círculo de Leitores, 1998, v.2.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente; 1300-1800 uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ELLIOT, J. H. La España imperial; 1469-1716. 1 red. Barcelona: Editorial Vicens-Vives, 1987.
___________. España y su mundo; 1500-1700. Madrid: Alianza Editorial, 1990.
___________. El viejo mundo y el nuevo – 1492-1650. Madrid: Alianza Editorial, 1997.
___________. A conquista espanhola e a colonização da América. In: BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.I.
GERBI, Antonello. La disputa del Nuevo Mundo. Historia de una polémica, 1750-1900. México: Fondo de Cultura Económica, 1993.
GRUZINSKI, Serge. La colonización de lo imaginario. Sociedades indígenas y occidentalización en el México español. Siglos XVI-XVIII. México: Fondo de Cultura Económica, 1991.
_________________. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
1984.
LEÓN-PORTILLA, Miguel (Org.). A conquista da América Latina vista pelos índios; relatos astecas, maias e incas. Petrópolis: Vozes, 1984.
MELLO E SOUZA, Laura. Inferno Atlântico; demonologia e colonização. Séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
O'GORMAN, Edmundo. A invenção da América. São Paulo: UNESP, 1992.
PAZ, Octavio. Sor Juana Inês de la Cruz o las Trampas de la Fe.5.reimp.México: Fondo de Cultura Económica, 1992.
ROMANO, Ruggiero. Os conquistadores da américa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1972.
SCHWARTZ, Stuart B., LOCKHART, James. A América Latina na época colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
SOLANO, Francisco et al. Proceso histórico al conquistador. Madrid: Alianza Editorial, 1988.
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América; a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
VAINFAS, Ronaldo (Org.). América em tempo de conquista. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
VINCENT, Bernard. 1492: descoberta ou invasão? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
WACHTEL, Nathan. Los vencidos; los indios del Peru frente a la conquista española (1530-1570). Madrid: Alianza Editorial, 1976.



3.          PRÉVIA DAS INDEPENDÊNCIAS DA AMÉRICA

·  Independência das colônias espanholas – classes dominantes; criollos junto com mestiços e índios; colônias queriam liberdade econômica e autogoverno; falta de homogeneidade – zonas mercantis e zonas rurais;
· Ideologia – republicanos radicais (Francisco de Mirada e Simon Bolívar) e monarquistas liberais (José de San Martín); caudilhismo;
·   Movimento emancipacionista – caráter burguês e urbano ou aristocrático e rural – não foi movimento popular (exceção: México);
·  Emancipação das colônias – prosseguimento da exploração da mão-de-obra indígena;
·  Tupac Amaru – século XVIII – movimento camponês peruano; índios eram explorados nos trabalhos das minas e nas encomiendas;

Prévia das independências

· 1808 e 1810 – invasão da Península pelos franceses; deposição de Fernando VII; criação das Juntas de Governo na Espanha = disputa pela direção dos negócios coloniais; na América formaram-se as Juntas governativas = três correntes: fidelidade ao rei; autonomia em nome do rei; independência;
·   presença econômica da Inglaterra – 1806 – Bacia do Prata; Bloqueio Continental = intensificação de suas relações comerciais com áreas americanas;
·    Cabildos – neles os criollos dominavam, não eram eleitos pelo povo = importante participação no processo de emancipação;
· Idéias liberais francesas + independência das colônias inglesas = desejo de independência entre os criollos;
· Crise da monarquia espanhola + invasão francesa + estabelecimento de Juntas + poder dos criollos + pressão inglesa – independência;
·       Porto de Buenos Aires aberto em 1810 aos ingleses;
·  Movimento de independência – Caracas, Buenos Aires e México;
·    Lima representava reação espanhola;
·  Venezuela – Francisco de Miranda – grandes proprietários de terra – movimento republicano e aristocrático – proclamou a independência em 1811;
· Área Platina – burguesia mercantil;  deposição do vice-rei Cisneros na Revolução de Maio (1810);  Manuel Belgrano (monárquico) e Mariano Moreno (republicano);
·  México – rural e indígena (1810-1811) – Padre Miguel Hidalgo e Padre José Maria Morellos, que proclamou a independência do México;
·   Derrota de Napoleão Bonaparte = restauração do poder de Fernando VII (1814) – reação absolutista = tentativa de recolonização; Inglaterra contra às práticas monopolistas;
·  Congresso de Viena – contra movimentos liberais e nacionais; Santa Aliança (Rússia, Prússia e Áustria) – ajuda à Espanha para sufocar o movimento de libertação das colônias americanas; Inglaterra apóia esse movimento;
·   Vice-Reino do Prata (Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia) – movimento político iniciado em Buenos Aires fragmentou-se; Paraguai transformou-se em República; Uruguai foi incorporado por Portugal (só conseguiu sua independência em 1828); Argentina, chamada Províncias Unidas do Prata virou República em 1816 com a ajuda de José de San Martín;
· Chile – Bernardo de O’Hoggins começou o movimento de independência e com a ajuda mais tarde de San Martín foi proclamada a independência (1818);
·   Venezuela – Francisco de Miranda em 1812 foi vencido; Simon Bolívar, aristocrata colonial, foi o Libertador (1821); Bolívar queria unir a Venezuela  e Nova Granada (Colômbia, Panamá e Equador);
·  Peru – núcleo de resistência espanhola; auxiliados pelo inglês lorde Cochrane, o exército de San Martín tomou Lima e libertou o Peru em 1821;
·  Crise final do domínio espanhol estava ligada à restauração absolutista contra a vontade popular e da burguesia;
· Equador – José Sucre junto com San Martín tomaram Quito, anexando o Equador à Grã-Colômbia;
·  Auxílio inglês foi decisivo para as vitórias latino-americanas – Inglaterra defendia a não intervenção da Europa nos países recém-independentes, indo contra a Santa Aliança;
·    EUA a partir de 1821 também começou a ajudar, pois temiam a invasão russa em seu território através do Alasca e também a penetração econômica da Inglaterra – asseguraram a soberania das novas nações = Doutrina Monroe;
· Bolívar – republicano e San Martín – monarquista; divergências políticas;
· Elemento popular foi fundamental para o movimento de libertação colonial;
·   Último local espanhol – Alto-Peru (Bolívia); 1825 – exércitos de Bolívar e Sucre conseguiram a independência;
·  México – luta com caráter social e étnico (camponeses, índios e mestiços) conveniente à aristocracia criolla; projeto monárquico – emancipação sem romper com a Espanha; Agustín de Iturbide lutou contra Vicente Guerrero, que havia retomado o movimento iniciado pelos padres Hidalgo e Morellos; Plano de Iguala – acordo com os rebeldes e proclamou a independência do México; Iturbide proclamou-se imperador do México em 1822; levante chefiado por Antonio de Santa Ana depôs Iturbide;
· Novos Estados americanos = oligarquias rurais – caudilhos (chefes militares que com golpes tomavam o poder); duas correntes oligárquicas: unitaristas (um poder central forte) e federalistas (descentralização política);
·  Fragmentação política hispano-americana – especialização econômica regional; heterogeneidade étnica e cultural; isolamento das áreas coloniais; disputas pelo controle do poder local pelas oligarquias agrárias; pressão inglesa para que não se formassem blocos econômicos = frustração do sonho de Bolívar;
·        Século XIX na América – manutenção de padrões coloniais = imperialismo.


BIBLIOGRAFIA GERAL
ALVAREZ, S.; DAGNINO, E., ESCOBAR, A. (Orgs.). Cultura e Política nos movimentos sociais Latino-americanos. Novas leituras. Belo Horizonte: UFMG, 2000.
BARSOTTI, Paulo e PERICÁS, Luiz Bernardo (orgs.) América Latina: história, idéias e revolução. 2ª ed. São Paulo: Xamã, 1999.
BELLOTTO, M. e MARTINEZ CORRÊA, A. (orgs.). A América Latina de colonização espanhola. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1991.
BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 2001, v.III: Da Independência até 1870.
CARDOSO, Ciro. F. C. e PÉREZ BRIGNOLI, Héctor. História econômica da América Latina. 3.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
COGGIOLA, Osvaldo. (org.). A revolução francesa e seu impacto na América Latina. São Paulo: Nova Stella/Edusp, 1990.
LYNCH, John. As origens da independência da América espanhola. In: BETHELL, Leslie (org.). América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 1998, v.III.
MARTÍ, José. Nossa América. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1991.
PAZ, Octavio. Sor Juana Inês de la Cruz o las Trampas de la Fe.5.reimp.México: Fondo de Cultura Económica, 1992.
POMER, León. As independências na América Latina. 4ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.
PRADO, Maria Lígia Coelho. América Latina no século XIX. Tramas, Telas e Textos. São Paulo/Bauru: Edusp/Edusc, 1999.
________________________. A formação das nações latino-americanas. 3.ed. São Paulo: Atual, 1987.
SCHWARTZ, Stuart B., LOCKHART, James. A América Latina na época colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.


domingo, 9 de setembro de 2012

O DEMÔNIO NOS ANDES




Já a partir da metade do século XVI começam a aparecer no Vice-Reinado do Peru fenômenos de possessão, pacto com o demônio, bruxaria e outras heresias. Um processo importante e bastante estudado é a causa de Maria Pizarro[1], uma jovem limense acusada de estar endemoniada e que por muitos anos foi exorcizada por um grupo de religiosos, dois jesuítas e três dominicanos. A importância deste processo está relacionada também com o momento em que ocorreu, visto que várias mudanças reformistas estavam em andamento. Não podemos esquecer, que o vice-rei Francisco de Toledo havia chegado em 1569 para dar início a mudanças políticas solicitadas por Felipe II com o objetivo de impor a autoridade real aos colonos, muitos deles descendentes dos primeiros conquistadores. No âmbito religioso ocorreram dois fatos marcantes, a chegada da Companhia de Jesus a Lima em 1568 e a instalação do Tribunal do Santo Ofício em 1569. Esse conjunto de acontecimentos favorecia a política reformista da Coroa e também a tarefa evangelizadora[2] e ao mesmo tempo, propiciou o desenvolvimento de histórias relacionadas com o sobrenatural, como o que ocorreu com Maria Pizarro.
Dentre os vários casos julgados pela Inquisição limense podemos destacar o dessa jovem criolla, que em 1571 é envolvida num longo processo junto com seus confessores, os jesuítas Jerónimo Ruiz de Portillo e Luis López e os dominicanos Fr. Alonso Gasco, Fr. Pedro de Toro e Fr. Francisco de la Cruz. Maria Pizarro dizia ter visões e conversar com seres, que ninguém sabia se eram anjos ou demônios. Por conta disso, várias pessoas começaram a consultá-la achando que fosse uma “iluminada”. O grupo de religiosos acima mencionados passou a revezar-se em sua casa para tentar exorcizá-la e descobrir se ela estava sob o domínio do bem ou do mal. Porém, alguns se envolveram carnalmente com ela, cometendo o grave crime da solicitação. Outros acreditaram em suas visões e vislumbraram a possibilidade de criar-se uma seita, que questionava os dogmas católicos e também o poder da coroa espanhola. O resultado de tal caso foi o início do longo processo inquisitorial contra a dita “iluminada” e esse grupo de religiosos, que passaremos a relatar.
Tudo começou quando o Fr. Alonso Gasco, cheio de remorsos, resolveu se auto-denunciar ao Tribunal do Santo Ofício em julho de 1571. Em suas declarações delatou os demais participantes das sessões de exorcismo em torno de Maria Pizarro[3]. Ele realmente acreditava que a jovem criolla incorporava santos e só sob tortura acabou confessando que se enganara. Foi condenado a auto público, abjuração e desterro. Seu companheiro, o Fr. Pedro de Toro, foi aprisionado logo depois de sua condenação, exatamente em julho de 1572. Ele declarou ter expulsado 8 mil demônios do corpo de Maria Pizarro[4] e por isso, acabou sendo condenado. Fr. Pedro acabou adoecendo, mas recebeu a absolvição sacramental e por ter morrido antes de assinar a sentença de reconciliação, foi necessário fazer sair ao auto sua estátua com hábito penitencial para que sua sentença fosse lida e ele reconciliado. Certos documentos da época mencionam sua participação em um levantamento contra o vice-rei Toledo, levando a crer que sua condenação inicial nada tinha a ver com o exorcismo praticado no caso de Maria Pizarro, e sim, devido aos motivos políticos em que se envolvera[5].
O caso do Fr. Francisco de la Cruz foi bem mais grave[6]. Esse dominicano chegou ao Peru acompanhando o Fr. Domingo de Santo Tomás, visitador e provincial da ordem dominicana no Peru. Tornou-se catedrático em Teologia na Universidade Mayor de San Marcos[7] e era homem de confiança do arcebispo de Lima. Mesmo assim, se envolveu no caso de Maria Pizarro, sendo chamado a depor ante o tribunal em outubro de 1571. Descreveu Maria Pizarro como uma mulher enamorada carnalmente de um demônio, mas ao mesmo tempo, contou sobre um menino caído do céu, que seria o libertador do Peru e, de um anjo, que incorporado na mulher, dizia coisas maravilhosas sobre o tal menino. Tais afirmações deixaram os membros do tribunal surpresos, pois não era um discurso condizente ao de um teólogo, ainda mais que ele admitia acreditar em tais fenômenos sobrenaturais. Acabou sendo preso e acusado de heresia por ter tido trato com o demônio incorporado em Maria Pizarro, por cuja boca lhe falava S. Gabriel e outros santos. Fez pacto com o demônio para aprender magia e para implantar sua seita, disse que nasceria um menino em Lima que seria santo, frade dominicano e a solução para o Peru[8]. Adorava um anjo, tendo por oráculo o que dizia a endemoniada Maria Pizarro e diante de tantas acusações foi solicitada a sua condenação. O frei se defendeu verbalmente e por escrito afirmando que em sua acusação nada comprometia sua fé católica. Em novembro de 1573 foi acusado novamente de querer criar uma seita para levantar-se contra o reino e trair o rei, segundo o queixoso vice-rei Toledo. Foi ainda acusado de defender hereges e feiticeiros e de se auto-intitular profeta e intérprete iluminado de Deus. Não houve mais defesa para ele, acabou sendo considerado herege astuto e pertinaz como nenhum outro e foi sentenciado à fogueira, sendo queimado vivo em 13 de abril de 1578.
Depois dos dominicanos, o Tribunal do Santo Ofício ouviu a jovem criolla e analfabeta Maria Pizarro, aprisionando-a em dezembro de 1572. Na primeira audiência ela se declarou donzela de 22 anos e frente às pressões inquisitoriais acabou relatando suas visões e a dúvida sobre se os seres que lhe apareciam eram santos ou demônios e sobre os exorcismos que lhe fizeram os religiosos envolvidos no caso. Acabou por confessar que havia tido tratos com o demônio que lhe aparecia como um “homem gentil” e havia prometido casar-se com ela. Posteriormente, confessou que teve trato carnal com o P. Luis López e que o P. Ruiz Portillo também teve amizade com ela. Posteriormente voltou atrás em seu testemunho, negando sua relação com o P. López e explicando que só havia dito tais coisas porque estava chateada com ele e que prosseguia donzela como quando nasceu. Em junho de 1573, foi acusada de heresia por ter tido “pacto com o demônio”, porém morreu sem ter assinado a acusação e foi enterrada em segredo. Os inquisidores consultaram a Suprema e alguns anos depois a causa foi suspensa e os herdeiros comunicados do paradeiro de seu corpo[9].
Luis López foi o último a ser interrogado, sendo considerado o principal exorcista no caso de Maria Pizarro. Ele foi um dos fundadores da Companhia de Jesus no Peru, mesmo assim, o acusaram de crer e divulgar que os “incorporados” em Maria Pizarro eram anjos e santos e também por crime de solicitação, visto que se aproveitou sexualmente da jovem criolla. Ele também foi acusado de utilizar “palavras graves” contra sua majestade, bispos e vice-reis, difamar o governo espiritual e temporal e incitar a rebelião projetada por Fr. Francisco de la Cruz. Concluído o processo foi condenado a diversas privações e ao desterro perpétuo. Alguns documentos mostram que ele realmente predicava contra o vice-rei Toledo, o que demonstra que Toledo também se utilizou da Inquisição para livrar-se de opositores. Porém, a influência dos jesuítas e do P. José de Acosta o salvaram de uma pena maior[10]. O P. Ruiz de Portillo não foi processado, não só por ser jesuíta, pois o Tribunal de Lima tinha recebido do Conselho da Suprema Inquisição de Madri indicações para agir com cautela em relação à Companhia de Jesus, mas também pela condição de protegido do vice-rei Toledo, visto ter sido seu mentor espiritual por um tempo[11].
Este processo, em especial, demonstra que a crença no demônio realmente já fazia parte do imaginário colonial[12]. Porém, a coroa e a igreja lançaram mão desse mesmo imaginário para resolver problemas políticos, utilizando o Tribunal do Santo Ofício para colocar ordem nessa sociedade em convulsão. Como constatamos, alguns dos religiosos envolvidos nesse processo predicavam contra a monarquia espanhola e inclusive, como no caso do Fr. Francisco de la Cruz, contestavam os dogmas católicos e proclamavam a destruição da velha cristandade européia em suas profecias. O Fr. Francisco ainda se intitulou o novo Papa da Igreja que ressurgiria em Lima e incitou a população local a escolher um novo monarca para o vice-reino e a levantar-se contra o poder da metrópole. Os membros da Inquisição e o vice-rei Toledo percebendo os perigos de tais discursos trataram de aprisionar e condenar esses religiosos, o que reitera a percepção do caso de Maria Pizarro como motivação para colocar fim ao que poderia ter sido o início de uma sublevação contra os dogmas da Igreja Católica e o domínio da monarquia espanhola e seus representantes no vice-reinado do Peru.


Pachacamac - Deus da costa peruana demonizado pelos espanhóis


  
b. Práticas mágicas em fontes inquisitoriais e de idolatrias

Depois de termos analisado o imbricado processo de Maria Pizarro, passaremos ao exame de fontes inquisitoriais e de idolatrias relacionadas às práticas mágicas, mais propriamente, a feitiçaria e bruxaria com a participação demoníaca.
Como os deuses nativos foram convertidos em figuras malignas e no imaginário de origem hispânica elas sempre habitaram, nesses processos transparece a junção da visão dos religiosos a respeito da demonologia e bruxaria e a demonização do imaginário colonial que se formou após a chegada dos espanhóis ao vice-reinado do Peru.
As relações de causas e processos a que tivemos acesso são bastante resumidas e não permitem recuperar detalhes sobre os acusados, como sua proveniência geográfica, visto que nem sempre é mencionada, ou seu status social. Porém, a maioria dos acusados pela Inquisição e pela Extirpação de praticarem feitiçaria pertencia a grupos mais pobres.
Os feiticeiros eram aquelas pessoas que dominavam a arte da cura, da adivinhação, de preparar filtros do amor e também de praticar malefícios. Nos processos aparecem muitas mulheres ditas “bruxas”, mas em maior número como clientes desses especialistas em magia. Tais homens e mulheres pertenciam a diferentes grupos e a diversidade étnica aparece como uma constante nos processos.
No começo, o Tribunal do Santo Ofício perseguiu massivamente os feiticeiros de origem espanhola, até mesmo por que os indígenas estavam fora de sua jurisdição. Pela análise de alguns processos, podemos perceber que essa divisão não se apresentava tão explícita. Como exemplo, podemos mencionar o caso de várias mulheres que foram acusadas de praticar feitiçaria em 1598 e entre elas, havia duas espanholas, Maria Maldonado de Sevilha e Francisca Ximénez. A primeira defendeu com orgulho seus conhecimentos de rituais e orações próprios de uma sevilhana[13] e certamente foi responsável por repassar esses ritos a muitas outras mulheres. Francisca Ximénez foi uma de suas discípulas e confessou ter prosseguido sua formação consultando diversas outras mulheres para aprender novos conjuros[14]. Em seu depoimento chega a mencionar que
…avia hablado a çiertas yndias hechiceras para que le dixesen çiertas cosas que quería saber y se las dixeron, y no les dio credito[15].

Isso nos faz pensar nos motivos que a levaram a negar sua curiosidade em relação aos conhecimentos indígenas e também porque os inquisidores não lhe pediram detalhes, possivelmente pelo fato de que as tais feiticeiras estavam fora de seu alcance. Na continuação desse processo aparecem outras mulheres, algumas mestiças, e todas afirmam trocar informações entre elas em quéchua, o que demonstra novamente a presença do elemento indígena. Sempre se referem a feiticeiras indígenas a quem consultam, mas o medo de receberem um castigo maior por parte da Inquisição as faz  escamotear a própria história[16]. Esse exemplo demonstra que houve uma circulação de tradições e conhecimentos entre etnias distintas, mas não comprova ainda a formação de novos ritos oriundos de uma mescla cultural.
Em 1662, Magdalena Camacho declara que fazia junto com outras mulheres o “conjuro de la anima sola” para que lhe trouxesse o amante ausente. Depois de feito o conjuro, rezava alguns credos e
…dezía que los depositaba en las faldas de nuestra señora da Virgen Maria para ofrecerlos por el ánima sola, para que saliesse de sus penas en trayendo al hombre a la voluntad de la mujer[17].

Percebe-se através desse processo que paulatinamente foi se formando uma tradição comum aos membros dos diversos grupos étnicos, ilustrando as transformações ocorridas com a feitiçaria no início do século XVII. A troca de conhecimentos entre colegas de diferentes etnias, proporcionou a recomposição de rituais em que as orações e conjuros que provinham dos modelos espanhóis se mesclam ao uso da coca, do tabaco e outros objetos que pertenciam à cultura indígena e africana.
Lima vivia no século XVII um “clima de milagrería” que não favorecia o desenvolvimento da medicina científica, por isso, a medicina popular detinha diversos conhecimentos adquiridos nas transferências culturais que se produziam na vida cotidiana[18].
A Extirpação também reproduziu o ceticismo e a incredulidade que caracterizou a perseguição aos feiticeiros pela Inquisição na Espanha metropolitana. Os visitadores descartaram a possibilidade de existência de uma autêntica presença demoníaca nas atividades dos especialistas religiosos andinos[19]. Porém, há vários casos em que o acusado não só testifica o pacto diabólico como confirma ter mantido relações sexuais com o demônio. Um exemplo disso é o caso de Inês Carva que em 1650 afirmou ter falado várias vezes com o diabo e que o recebia em seu leito da mesma maneira que receberia seu esposo[20]. Juana Icha, outra acusada, insistiu na sua ligação com o demônio, pois este havia lhe concedido os ensinamentos sobre curandeirismo e a adivinhação[21]. Esses casos demonstram que muitas vezes os acusados prestavam o testemunho que correspondia aquilo que os espanhóis tinham como pré-concebido.
O processo de María Ynes, “la de narices cortados”, de 1662 é outro exemplo de curandeira que foi acusada de ser feiticeira, adivinha e curar com superstições por possuir pacto com o demônio[22].
Em 1668, a índia Juana de Mayo, julgada por idolatria, se reunia com uma espanhola, uma mestiça e uma mulata para fazer seus conjuros, mas ao adoecer foi a uma negra que ela recorreu[23]. Isso demonstra que não importava a etnia, pois esses feiticeiros(as) funcionavam como intermediários entre o mundo dos homens e o universo e a eles todos procuravam para sanar problemas, curar enfermidades, resolver problemas de amor, inveja e qualquer outro assunto em que o poder das forças ocultas pudesse ajudar efetivamente.
Outro processo expressivo é o de Gerónimo de Ortega que foi processado em 1705 e em seus intentos de obter favores do demônio lança mão de todas as tradições culturais:
Demônio africano, tu que dizen eres señor del África, como tan poderoso ayúdanos y danos fortuna así para el juego como para nuestros amores y te convocaremos en adelante y detestaremos el auxilio de Dios, y puesto de rodillas cogían la yerba coca en las manos y la lebantaban en alto[24].

Ele usa a magia espanhola, faz pacto com o demônio, utiliza a coca, chicha[25], milho, aguardente, penas, cabelos humanos, procura bruxas e tudo o que for necessário para alcançar seus propósitos de receber as benesses do além.
A causa de Lorenza Vilchez[26], natural do povoado de Guayau da província de Tauyou do Arcebispado de Lima (mapa em anexo), datada de 1762, é mais um exemplo de como os mestiços desempenharam importante papel de “intermediários culturais” e consequentemente acabavam sofrendo a repressão inquisitorial. Lorenza era casada, lavradora e foi acusada de ter pacto com o demônio. Todas as testemunhas, mestiços, índios e brancos, afirmaram ser ela adivinha, mas não bruxa, pois conseguia achar coisas perdidas e descobrir feitiços e desmanchá-los. Tinha mais de 50 anos e manifestou total ignorância da doutrina cristã e não sabia sequer uma oração. Quando o fiscal leu sua sentença ela disse não haver cometido heresia e nem apostasiado. Porém, acabou por confessar que mantinha relações com o demônio, pois este lhe aparecia sempre como um homem gentil. Como para os inquisidores as mulheres eram sempre mais propensas ao encanto e à bruxaria, depois de ter confessado a apostasia e a idolatria formal com pacto expresso com o demônio, pediram que abjurasse e a reconciliaram, porém condenaram-na à prisão perpétua. Seu processo demonstra que na sociedade colonial do século XVIII persistiram as crenças nas práticas mágicas, inclusive com a participação do demônio, como uma forma de oposição aos costumes católicos. A troca de saberes, entre as diferentes culturas, se fez presente nos três séculos do período colonial, propiciando o bom funcionamento dessa sociedade.
Nos exemplos apresentados encontramos alguns dos ‘intermediários culturais” responsáveis por interceder junto às forças ocultas na resolução de problemas terrenos e que compartilhavam dos mesmos saberes e discursos. Diferente do processo de Maria Pizarro, que também tinha uma motivação política pautada nos conflitos entre as ordens religiosas, os processos acima mencionados estavam atrelados ao imaginário do período colonial, em que a população era extremamente crédula em relação ao sobrenatural e aderia à cumplicidade contra as forças malignas para alcançar seus objetivos e escapar aos dilemas do cotidiano. De certo modo, essas práticas ajudaram a manter a união entre as diversas culturas e a superar alguns dos problemas sociais que afetavam a população do Arcebispado de Lima no período colonial.
Muitas foram as causas para a perseguição de bruxos e bruxas no Arcebispado de Lima no período colonial. Entre elas, temos o fato de que a sociedade via os feiticeiros como aqueles que conseguiam através de suas técnicas ocultas remediar situações que escapavam ao controle das pessoas comuns. Os feiticeiros cientes de seu poder exploravam essa situação a seu favor. A forma encontrada para combater esse poder foi através da Inquisição e dos tribunais ordinários com o resgate das artes maléficas associadas ao pacto diabólico, insuflado pelo espírito da Contra-Reforma. Era necessário minimizar essa transgressão aos cânones da ortodoxia, que também simbolizava perigo à solidez do Estado. Podemos afirmar que essa foi uma solução para algumas tensões existentes na sociedade, usando para isso o imaginário coletivo de medo do diabo e dos bruxos para, entre outras coisas, desviar a atenção das falhas da Igreja e do Estado.
Nos processos analisados pudemos descortinar crendices, medos, a preferência de alguns pela medicina-mágica, o temor ao sobrenatural e também o caráter conspiratório de tais acusações, visto que grande parte dos réus pertencia a grupos mais pobres e as motivações para tais processos, por vezes, tinham relação com questões políticas ou econômicas.
No caso dos indígenas, o combate às idolatrias passou necessariamente pela dificuldade em lidar com uma cultura tão diferente e desconhecida para o espanhol. Com o passar do tempo, percebe-se que a tônica não estava mais ligada às dificuldades do processo de alteridade, e sim, aos interesses econômicos e políticos de certos visitadores e até mesmo de autoridades étnicas. Após sofrerem com a repressão cultural, indígenas se apropriaram desses mecanismos de controle à disposição dos setores dominantes da sociedade colonial e passaram a fazer uso deles para alcançarem seus próprios objetivos.
Percebe-se que a aparente vitória do cristianismo se dissolveu nas próprias idolatrias, que nada mais eram do que um conjunto de elementos católicos mesclados com características religiosas indígenas. Daí o aparecimento de movimentos nativistas de resistência, portadores da idéia de transformar a sociedade, amparando-se em elementos pré-hispânicos. As idolatrias, como tais, deveriam ser então descartadas assim como o cristianismo, para dar lugar à verdadeira religião dos tempos incaicos. A idolatria constituiu a resposta do indígena ao processo de evangelização levado a cabo pelos espanhóis no período colonial.
Como na Europa, a luta contra a heresia nos Andes teve fins políticos e econômicos, pois bruxos e bruxas foram perseguidos por representarem a resistência ao mundo colonial e as tensões culturais do cotidiano, em que brancos, índios, mestiços e negros precisaram aceitar as diferenças e somar elementos para não perder seu poder e significado na sociedade.
A ação inquisitorial e as campanhas de extirpação de idolatrias não foram suficientes para destruir tais crenças, pois a lógica mental colonial se formou nessa mescla de crenças e se adaptou fazendo uso dos variados elementos culturais para recriar seu próprio imaginário religioso. Prova disso, é o prosseguimento até os dias atuais da crença nos bruxos, no curandeirismo e no culto a deuses ligados à agricultura e pecuária, que nada mais é do que o resultado dessa confluência cultural entre europeus, africanos e ameríndios.



[1] AHN, Inquisición, leg.1647, exp.1. Sobre a causa de María Pizarro ver: TORÍBIO DE MEDINA, José. Historia del Tribunal de la Inquisición de Lima (1569-1820). Santiago: Fondo Histórico y Bibliográfico J.T. Medina, 1956, p.73-89; CASTAÑEDA DELGADO, Paulino, HERNÁNDEZ APARICIO, Pilar. La Inquisición de Lima. Tomo I. (1570-1635). Madrid: Editorial Deimos, 1989, p.297-312; ABRIL CASTELLÓ, Vidal, ABRIL STOFFELS, Miguel J., Francisco de la Cruz, Inquisición,  Actas, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Centro de Estudios Históricos, 1992-96. 3 vol.; HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.65-79 e 127-143; TARDIEU, Jean-Pierre. Le nouveau David et la reforme du Pérou. L’affaire Maria Pizarro – Francisco de la Cruz (1571-1596). Bordeau: Maison des Pays Ibériques, 1992, cap. I e II.
[2] MILLAR CARVACHO, René. Entre ángeles y demônios. María Pizarro y la Inquisición de Lima 1550-1573. Historia, nº40, vol.II, 2007, p.382-383.
[3] Como foi o caso do Fr. Francisco de la Cruz, originando um enorme processo contra esse dominicano que acabou condenado à fogueira em 1578. AHN, Inquisición, 1650, Exp.1, f.554-558.
[4] AHN, Inquisición, leg. 1647, exp.1, f.115.
[5] HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.112-113.
[6] AHN, Inquisición, leg.1650, exp.1.
[7] MELÉNDEZ, Juan. Tesoros verdaderos de las Indias en la Historia de la gran Provincia de San Juan Bautista del Perú. Roma: Nicolas Angel Tinassio, 1681, t.I, p.180-188.
[8] ABRIL CASTELLÓ, Vidal, ABRIL STOFFELS, Miguel J., Francisco de la Cruz, Inquisición,  Actas, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Centro de Estudios Históricos, 1992-96, p.411.
[9] CASTAÑEDA DELGADO, Paulino, HERNÁNDEZ APARICIO, Pilar. La Inquisición de Lima. Tomo I. (1570-1635). Madrid: Editorial Deimos, 1989, p.308.
[10] HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.207-210.
[11] Idem, p.193 e 234-235.
[12] Ele fazia parte das mais antigas crenças camponesas européias e também já estava misturado nas crenças religiosas indígenas no vice-reinado do Peru no período colonial. DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente; 1300-1800 uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989 e ESTENSORO, Juan Carlos. Del paganismo a la santidad. Lima: IFEA/Instituto Riva Agüero, 2003.
[13] AHN, Libro 1028, f.503r.
[14] Idem, f.505r.
[15] Idem, f.505v.
[16] Idem, f.512r.
[17] AHN, Inquisición, leg.1648, exp.18, f.35v.
[18] SÁNCHEZ, Ana. Amancebados, hechiceros y rebeldes (Chancay, siglo XVII). Cuzco: Centro de Estudios Regionales Andinos Bartolomé de Las Casas, 1991, p.XXXIII.
[19] GRIFFITHS, Nicholas. La cruz y la serpiente: La represión y el resurgimiento religioso en el Perú colonial. Lima: Fondo Editorial de la Pontifícia Universidad Católica del Perú, 1998, p.151.
[20] AAL, Idolatrias, leg. III, exp.2, f.5.
[21] AAL, Idolatrias, leg.III, exp.1, f.6-10.
[22] AAL, Idolatrias, leg.IV, exp.5.
[23] AAL, Idolatrias, leg.VI, exp.8.
[24] Idem, f.179v.
[25] Bebida fermentada feita de milho.
[26] AHN, Inquisición, leg.1656, exp.4.