domingo, 9 de setembro de 2012

O DEMÔNIO NOS ANDES




Já a partir da metade do século XVI começam a aparecer no Vice-Reinado do Peru fenômenos de possessão, pacto com o demônio, bruxaria e outras heresias. Um processo importante e bastante estudado é a causa de Maria Pizarro[1], uma jovem limense acusada de estar endemoniada e que por muitos anos foi exorcizada por um grupo de religiosos, dois jesuítas e três dominicanos. A importância deste processo está relacionada também com o momento em que ocorreu, visto que várias mudanças reformistas estavam em andamento. Não podemos esquecer, que o vice-rei Francisco de Toledo havia chegado em 1569 para dar início a mudanças políticas solicitadas por Felipe II com o objetivo de impor a autoridade real aos colonos, muitos deles descendentes dos primeiros conquistadores. No âmbito religioso ocorreram dois fatos marcantes, a chegada da Companhia de Jesus a Lima em 1568 e a instalação do Tribunal do Santo Ofício em 1569. Esse conjunto de acontecimentos favorecia a política reformista da Coroa e também a tarefa evangelizadora[2] e ao mesmo tempo, propiciou o desenvolvimento de histórias relacionadas com o sobrenatural, como o que ocorreu com Maria Pizarro.
Dentre os vários casos julgados pela Inquisição limense podemos destacar o dessa jovem criolla, que em 1571 é envolvida num longo processo junto com seus confessores, os jesuítas Jerónimo Ruiz de Portillo e Luis López e os dominicanos Fr. Alonso Gasco, Fr. Pedro de Toro e Fr. Francisco de la Cruz. Maria Pizarro dizia ter visões e conversar com seres, que ninguém sabia se eram anjos ou demônios. Por conta disso, várias pessoas começaram a consultá-la achando que fosse uma “iluminada”. O grupo de religiosos acima mencionados passou a revezar-se em sua casa para tentar exorcizá-la e descobrir se ela estava sob o domínio do bem ou do mal. Porém, alguns se envolveram carnalmente com ela, cometendo o grave crime da solicitação. Outros acreditaram em suas visões e vislumbraram a possibilidade de criar-se uma seita, que questionava os dogmas católicos e também o poder da coroa espanhola. O resultado de tal caso foi o início do longo processo inquisitorial contra a dita “iluminada” e esse grupo de religiosos, que passaremos a relatar.
Tudo começou quando o Fr. Alonso Gasco, cheio de remorsos, resolveu se auto-denunciar ao Tribunal do Santo Ofício em julho de 1571. Em suas declarações delatou os demais participantes das sessões de exorcismo em torno de Maria Pizarro[3]. Ele realmente acreditava que a jovem criolla incorporava santos e só sob tortura acabou confessando que se enganara. Foi condenado a auto público, abjuração e desterro. Seu companheiro, o Fr. Pedro de Toro, foi aprisionado logo depois de sua condenação, exatamente em julho de 1572. Ele declarou ter expulsado 8 mil demônios do corpo de Maria Pizarro[4] e por isso, acabou sendo condenado. Fr. Pedro acabou adoecendo, mas recebeu a absolvição sacramental e por ter morrido antes de assinar a sentença de reconciliação, foi necessário fazer sair ao auto sua estátua com hábito penitencial para que sua sentença fosse lida e ele reconciliado. Certos documentos da época mencionam sua participação em um levantamento contra o vice-rei Toledo, levando a crer que sua condenação inicial nada tinha a ver com o exorcismo praticado no caso de Maria Pizarro, e sim, devido aos motivos políticos em que se envolvera[5].
O caso do Fr. Francisco de la Cruz foi bem mais grave[6]. Esse dominicano chegou ao Peru acompanhando o Fr. Domingo de Santo Tomás, visitador e provincial da ordem dominicana no Peru. Tornou-se catedrático em Teologia na Universidade Mayor de San Marcos[7] e era homem de confiança do arcebispo de Lima. Mesmo assim, se envolveu no caso de Maria Pizarro, sendo chamado a depor ante o tribunal em outubro de 1571. Descreveu Maria Pizarro como uma mulher enamorada carnalmente de um demônio, mas ao mesmo tempo, contou sobre um menino caído do céu, que seria o libertador do Peru e, de um anjo, que incorporado na mulher, dizia coisas maravilhosas sobre o tal menino. Tais afirmações deixaram os membros do tribunal surpresos, pois não era um discurso condizente ao de um teólogo, ainda mais que ele admitia acreditar em tais fenômenos sobrenaturais. Acabou sendo preso e acusado de heresia por ter tido trato com o demônio incorporado em Maria Pizarro, por cuja boca lhe falava S. Gabriel e outros santos. Fez pacto com o demônio para aprender magia e para implantar sua seita, disse que nasceria um menino em Lima que seria santo, frade dominicano e a solução para o Peru[8]. Adorava um anjo, tendo por oráculo o que dizia a endemoniada Maria Pizarro e diante de tantas acusações foi solicitada a sua condenação. O frei se defendeu verbalmente e por escrito afirmando que em sua acusação nada comprometia sua fé católica. Em novembro de 1573 foi acusado novamente de querer criar uma seita para levantar-se contra o reino e trair o rei, segundo o queixoso vice-rei Toledo. Foi ainda acusado de defender hereges e feiticeiros e de se auto-intitular profeta e intérprete iluminado de Deus. Não houve mais defesa para ele, acabou sendo considerado herege astuto e pertinaz como nenhum outro e foi sentenciado à fogueira, sendo queimado vivo em 13 de abril de 1578.
Depois dos dominicanos, o Tribunal do Santo Ofício ouviu a jovem criolla e analfabeta Maria Pizarro, aprisionando-a em dezembro de 1572. Na primeira audiência ela se declarou donzela de 22 anos e frente às pressões inquisitoriais acabou relatando suas visões e a dúvida sobre se os seres que lhe apareciam eram santos ou demônios e sobre os exorcismos que lhe fizeram os religiosos envolvidos no caso. Acabou por confessar que havia tido tratos com o demônio que lhe aparecia como um “homem gentil” e havia prometido casar-se com ela. Posteriormente, confessou que teve trato carnal com o P. Luis López e que o P. Ruiz Portillo também teve amizade com ela. Posteriormente voltou atrás em seu testemunho, negando sua relação com o P. López e explicando que só havia dito tais coisas porque estava chateada com ele e que prosseguia donzela como quando nasceu. Em junho de 1573, foi acusada de heresia por ter tido “pacto com o demônio”, porém morreu sem ter assinado a acusação e foi enterrada em segredo. Os inquisidores consultaram a Suprema e alguns anos depois a causa foi suspensa e os herdeiros comunicados do paradeiro de seu corpo[9].
Luis López foi o último a ser interrogado, sendo considerado o principal exorcista no caso de Maria Pizarro. Ele foi um dos fundadores da Companhia de Jesus no Peru, mesmo assim, o acusaram de crer e divulgar que os “incorporados” em Maria Pizarro eram anjos e santos e também por crime de solicitação, visto que se aproveitou sexualmente da jovem criolla. Ele também foi acusado de utilizar “palavras graves” contra sua majestade, bispos e vice-reis, difamar o governo espiritual e temporal e incitar a rebelião projetada por Fr. Francisco de la Cruz. Concluído o processo foi condenado a diversas privações e ao desterro perpétuo. Alguns documentos mostram que ele realmente predicava contra o vice-rei Toledo, o que demonstra que Toledo também se utilizou da Inquisição para livrar-se de opositores. Porém, a influência dos jesuítas e do P. José de Acosta o salvaram de uma pena maior[10]. O P. Ruiz de Portillo não foi processado, não só por ser jesuíta, pois o Tribunal de Lima tinha recebido do Conselho da Suprema Inquisição de Madri indicações para agir com cautela em relação à Companhia de Jesus, mas também pela condição de protegido do vice-rei Toledo, visto ter sido seu mentor espiritual por um tempo[11].
Este processo, em especial, demonstra que a crença no demônio realmente já fazia parte do imaginário colonial[12]. Porém, a coroa e a igreja lançaram mão desse mesmo imaginário para resolver problemas políticos, utilizando o Tribunal do Santo Ofício para colocar ordem nessa sociedade em convulsão. Como constatamos, alguns dos religiosos envolvidos nesse processo predicavam contra a monarquia espanhola e inclusive, como no caso do Fr. Francisco de la Cruz, contestavam os dogmas católicos e proclamavam a destruição da velha cristandade européia em suas profecias. O Fr. Francisco ainda se intitulou o novo Papa da Igreja que ressurgiria em Lima e incitou a população local a escolher um novo monarca para o vice-reino e a levantar-se contra o poder da metrópole. Os membros da Inquisição e o vice-rei Toledo percebendo os perigos de tais discursos trataram de aprisionar e condenar esses religiosos, o que reitera a percepção do caso de Maria Pizarro como motivação para colocar fim ao que poderia ter sido o início de uma sublevação contra os dogmas da Igreja Católica e o domínio da monarquia espanhola e seus representantes no vice-reinado do Peru.


Pachacamac - Deus da costa peruana demonizado pelos espanhóis


  
b. Práticas mágicas em fontes inquisitoriais e de idolatrias

Depois de termos analisado o imbricado processo de Maria Pizarro, passaremos ao exame de fontes inquisitoriais e de idolatrias relacionadas às práticas mágicas, mais propriamente, a feitiçaria e bruxaria com a participação demoníaca.
Como os deuses nativos foram convertidos em figuras malignas e no imaginário de origem hispânica elas sempre habitaram, nesses processos transparece a junção da visão dos religiosos a respeito da demonologia e bruxaria e a demonização do imaginário colonial que se formou após a chegada dos espanhóis ao vice-reinado do Peru.
As relações de causas e processos a que tivemos acesso são bastante resumidas e não permitem recuperar detalhes sobre os acusados, como sua proveniência geográfica, visto que nem sempre é mencionada, ou seu status social. Porém, a maioria dos acusados pela Inquisição e pela Extirpação de praticarem feitiçaria pertencia a grupos mais pobres.
Os feiticeiros eram aquelas pessoas que dominavam a arte da cura, da adivinhação, de preparar filtros do amor e também de praticar malefícios. Nos processos aparecem muitas mulheres ditas “bruxas”, mas em maior número como clientes desses especialistas em magia. Tais homens e mulheres pertenciam a diferentes grupos e a diversidade étnica aparece como uma constante nos processos.
No começo, o Tribunal do Santo Ofício perseguiu massivamente os feiticeiros de origem espanhola, até mesmo por que os indígenas estavam fora de sua jurisdição. Pela análise de alguns processos, podemos perceber que essa divisão não se apresentava tão explícita. Como exemplo, podemos mencionar o caso de várias mulheres que foram acusadas de praticar feitiçaria em 1598 e entre elas, havia duas espanholas, Maria Maldonado de Sevilha e Francisca Ximénez. A primeira defendeu com orgulho seus conhecimentos de rituais e orações próprios de uma sevilhana[13] e certamente foi responsável por repassar esses ritos a muitas outras mulheres. Francisca Ximénez foi uma de suas discípulas e confessou ter prosseguido sua formação consultando diversas outras mulheres para aprender novos conjuros[14]. Em seu depoimento chega a mencionar que
…avia hablado a çiertas yndias hechiceras para que le dixesen çiertas cosas que quería saber y se las dixeron, y no les dio credito[15].

Isso nos faz pensar nos motivos que a levaram a negar sua curiosidade em relação aos conhecimentos indígenas e também porque os inquisidores não lhe pediram detalhes, possivelmente pelo fato de que as tais feiticeiras estavam fora de seu alcance. Na continuação desse processo aparecem outras mulheres, algumas mestiças, e todas afirmam trocar informações entre elas em quéchua, o que demonstra novamente a presença do elemento indígena. Sempre se referem a feiticeiras indígenas a quem consultam, mas o medo de receberem um castigo maior por parte da Inquisição as faz  escamotear a própria história[16]. Esse exemplo demonstra que houve uma circulação de tradições e conhecimentos entre etnias distintas, mas não comprova ainda a formação de novos ritos oriundos de uma mescla cultural.
Em 1662, Magdalena Camacho declara que fazia junto com outras mulheres o “conjuro de la anima sola” para que lhe trouxesse o amante ausente. Depois de feito o conjuro, rezava alguns credos e
…dezía que los depositaba en las faldas de nuestra señora da Virgen Maria para ofrecerlos por el ánima sola, para que saliesse de sus penas en trayendo al hombre a la voluntad de la mujer[17].

Percebe-se através desse processo que paulatinamente foi se formando uma tradição comum aos membros dos diversos grupos étnicos, ilustrando as transformações ocorridas com a feitiçaria no início do século XVII. A troca de conhecimentos entre colegas de diferentes etnias, proporcionou a recomposição de rituais em que as orações e conjuros que provinham dos modelos espanhóis se mesclam ao uso da coca, do tabaco e outros objetos que pertenciam à cultura indígena e africana.
Lima vivia no século XVII um “clima de milagrería” que não favorecia o desenvolvimento da medicina científica, por isso, a medicina popular detinha diversos conhecimentos adquiridos nas transferências culturais que se produziam na vida cotidiana[18].
A Extirpação também reproduziu o ceticismo e a incredulidade que caracterizou a perseguição aos feiticeiros pela Inquisição na Espanha metropolitana. Os visitadores descartaram a possibilidade de existência de uma autêntica presença demoníaca nas atividades dos especialistas religiosos andinos[19]. Porém, há vários casos em que o acusado não só testifica o pacto diabólico como confirma ter mantido relações sexuais com o demônio. Um exemplo disso é o caso de Inês Carva que em 1650 afirmou ter falado várias vezes com o diabo e que o recebia em seu leito da mesma maneira que receberia seu esposo[20]. Juana Icha, outra acusada, insistiu na sua ligação com o demônio, pois este havia lhe concedido os ensinamentos sobre curandeirismo e a adivinhação[21]. Esses casos demonstram que muitas vezes os acusados prestavam o testemunho que correspondia aquilo que os espanhóis tinham como pré-concebido.
O processo de María Ynes, “la de narices cortados”, de 1662 é outro exemplo de curandeira que foi acusada de ser feiticeira, adivinha e curar com superstições por possuir pacto com o demônio[22].
Em 1668, a índia Juana de Mayo, julgada por idolatria, se reunia com uma espanhola, uma mestiça e uma mulata para fazer seus conjuros, mas ao adoecer foi a uma negra que ela recorreu[23]. Isso demonstra que não importava a etnia, pois esses feiticeiros(as) funcionavam como intermediários entre o mundo dos homens e o universo e a eles todos procuravam para sanar problemas, curar enfermidades, resolver problemas de amor, inveja e qualquer outro assunto em que o poder das forças ocultas pudesse ajudar efetivamente.
Outro processo expressivo é o de Gerónimo de Ortega que foi processado em 1705 e em seus intentos de obter favores do demônio lança mão de todas as tradições culturais:
Demônio africano, tu que dizen eres señor del África, como tan poderoso ayúdanos y danos fortuna así para el juego como para nuestros amores y te convocaremos en adelante y detestaremos el auxilio de Dios, y puesto de rodillas cogían la yerba coca en las manos y la lebantaban en alto[24].

Ele usa a magia espanhola, faz pacto com o demônio, utiliza a coca, chicha[25], milho, aguardente, penas, cabelos humanos, procura bruxas e tudo o que for necessário para alcançar seus propósitos de receber as benesses do além.
A causa de Lorenza Vilchez[26], natural do povoado de Guayau da província de Tauyou do Arcebispado de Lima (mapa em anexo), datada de 1762, é mais um exemplo de como os mestiços desempenharam importante papel de “intermediários culturais” e consequentemente acabavam sofrendo a repressão inquisitorial. Lorenza era casada, lavradora e foi acusada de ter pacto com o demônio. Todas as testemunhas, mestiços, índios e brancos, afirmaram ser ela adivinha, mas não bruxa, pois conseguia achar coisas perdidas e descobrir feitiços e desmanchá-los. Tinha mais de 50 anos e manifestou total ignorância da doutrina cristã e não sabia sequer uma oração. Quando o fiscal leu sua sentença ela disse não haver cometido heresia e nem apostasiado. Porém, acabou por confessar que mantinha relações com o demônio, pois este lhe aparecia sempre como um homem gentil. Como para os inquisidores as mulheres eram sempre mais propensas ao encanto e à bruxaria, depois de ter confessado a apostasia e a idolatria formal com pacto expresso com o demônio, pediram que abjurasse e a reconciliaram, porém condenaram-na à prisão perpétua. Seu processo demonstra que na sociedade colonial do século XVIII persistiram as crenças nas práticas mágicas, inclusive com a participação do demônio, como uma forma de oposição aos costumes católicos. A troca de saberes, entre as diferentes culturas, se fez presente nos três séculos do período colonial, propiciando o bom funcionamento dessa sociedade.
Nos exemplos apresentados encontramos alguns dos ‘intermediários culturais” responsáveis por interceder junto às forças ocultas na resolução de problemas terrenos e que compartilhavam dos mesmos saberes e discursos. Diferente do processo de Maria Pizarro, que também tinha uma motivação política pautada nos conflitos entre as ordens religiosas, os processos acima mencionados estavam atrelados ao imaginário do período colonial, em que a população era extremamente crédula em relação ao sobrenatural e aderia à cumplicidade contra as forças malignas para alcançar seus objetivos e escapar aos dilemas do cotidiano. De certo modo, essas práticas ajudaram a manter a união entre as diversas culturas e a superar alguns dos problemas sociais que afetavam a população do Arcebispado de Lima no período colonial.
Muitas foram as causas para a perseguição de bruxos e bruxas no Arcebispado de Lima no período colonial. Entre elas, temos o fato de que a sociedade via os feiticeiros como aqueles que conseguiam através de suas técnicas ocultas remediar situações que escapavam ao controle das pessoas comuns. Os feiticeiros cientes de seu poder exploravam essa situação a seu favor. A forma encontrada para combater esse poder foi através da Inquisição e dos tribunais ordinários com o resgate das artes maléficas associadas ao pacto diabólico, insuflado pelo espírito da Contra-Reforma. Era necessário minimizar essa transgressão aos cânones da ortodoxia, que também simbolizava perigo à solidez do Estado. Podemos afirmar que essa foi uma solução para algumas tensões existentes na sociedade, usando para isso o imaginário coletivo de medo do diabo e dos bruxos para, entre outras coisas, desviar a atenção das falhas da Igreja e do Estado.
Nos processos analisados pudemos descortinar crendices, medos, a preferência de alguns pela medicina-mágica, o temor ao sobrenatural e também o caráter conspiratório de tais acusações, visto que grande parte dos réus pertencia a grupos mais pobres e as motivações para tais processos, por vezes, tinham relação com questões políticas ou econômicas.
No caso dos indígenas, o combate às idolatrias passou necessariamente pela dificuldade em lidar com uma cultura tão diferente e desconhecida para o espanhol. Com o passar do tempo, percebe-se que a tônica não estava mais ligada às dificuldades do processo de alteridade, e sim, aos interesses econômicos e políticos de certos visitadores e até mesmo de autoridades étnicas. Após sofrerem com a repressão cultural, indígenas se apropriaram desses mecanismos de controle à disposição dos setores dominantes da sociedade colonial e passaram a fazer uso deles para alcançarem seus próprios objetivos.
Percebe-se que a aparente vitória do cristianismo se dissolveu nas próprias idolatrias, que nada mais eram do que um conjunto de elementos católicos mesclados com características religiosas indígenas. Daí o aparecimento de movimentos nativistas de resistência, portadores da idéia de transformar a sociedade, amparando-se em elementos pré-hispânicos. As idolatrias, como tais, deveriam ser então descartadas assim como o cristianismo, para dar lugar à verdadeira religião dos tempos incaicos. A idolatria constituiu a resposta do indígena ao processo de evangelização levado a cabo pelos espanhóis no período colonial.
Como na Europa, a luta contra a heresia nos Andes teve fins políticos e econômicos, pois bruxos e bruxas foram perseguidos por representarem a resistência ao mundo colonial e as tensões culturais do cotidiano, em que brancos, índios, mestiços e negros precisaram aceitar as diferenças e somar elementos para não perder seu poder e significado na sociedade.
A ação inquisitorial e as campanhas de extirpação de idolatrias não foram suficientes para destruir tais crenças, pois a lógica mental colonial se formou nessa mescla de crenças e se adaptou fazendo uso dos variados elementos culturais para recriar seu próprio imaginário religioso. Prova disso, é o prosseguimento até os dias atuais da crença nos bruxos, no curandeirismo e no culto a deuses ligados à agricultura e pecuária, que nada mais é do que o resultado dessa confluência cultural entre europeus, africanos e ameríndios.



[1] AHN, Inquisición, leg.1647, exp.1. Sobre a causa de María Pizarro ver: TORÍBIO DE MEDINA, José. Historia del Tribunal de la Inquisición de Lima (1569-1820). Santiago: Fondo Histórico y Bibliográfico J.T. Medina, 1956, p.73-89; CASTAÑEDA DELGADO, Paulino, HERNÁNDEZ APARICIO, Pilar. La Inquisición de Lima. Tomo I. (1570-1635). Madrid: Editorial Deimos, 1989, p.297-312; ABRIL CASTELLÓ, Vidal, ABRIL STOFFELS, Miguel J., Francisco de la Cruz, Inquisición,  Actas, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Centro de Estudios Históricos, 1992-96. 3 vol.; HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.65-79 e 127-143; TARDIEU, Jean-Pierre. Le nouveau David et la reforme du Pérou. L’affaire Maria Pizarro – Francisco de la Cruz (1571-1596). Bordeau: Maison des Pays Ibériques, 1992, cap. I e II.
[2] MILLAR CARVACHO, René. Entre ángeles y demônios. María Pizarro y la Inquisición de Lima 1550-1573. Historia, nº40, vol.II, 2007, p.382-383.
[3] Como foi o caso do Fr. Francisco de la Cruz, originando um enorme processo contra esse dominicano que acabou condenado à fogueira em 1578. AHN, Inquisición, 1650, Exp.1, f.554-558.
[4] AHN, Inquisición, leg. 1647, exp.1, f.115.
[5] HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.112-113.
[6] AHN, Inquisición, leg.1650, exp.1.
[7] MELÉNDEZ, Juan. Tesoros verdaderos de las Indias en la Historia de la gran Provincia de San Juan Bautista del Perú. Roma: Nicolas Angel Tinassio, 1681, t.I, p.180-188.
[8] ABRIL CASTELLÓ, Vidal, ABRIL STOFFELS, Miguel J., Francisco de la Cruz, Inquisición,  Actas, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Centro de Estudios Históricos, 1992-96, p.411.
[9] CASTAÑEDA DELGADO, Paulino, HERNÁNDEZ APARICIO, Pilar. La Inquisición de Lima. Tomo I. (1570-1635). Madrid: Editorial Deimos, 1989, p.308.
[10] HUERGA, Álvaro, Historia de los alumbrados (1570-1630). T. III: Los alumbrados de Hispanoamérica, 1570-1605. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1986, p.207-210.
[11] Idem, p.193 e 234-235.
[12] Ele fazia parte das mais antigas crenças camponesas européias e também já estava misturado nas crenças religiosas indígenas no vice-reinado do Peru no período colonial. DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente; 1300-1800 uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989 e ESTENSORO, Juan Carlos. Del paganismo a la santidad. Lima: IFEA/Instituto Riva Agüero, 2003.
[13] AHN, Libro 1028, f.503r.
[14] Idem, f.505r.
[15] Idem, f.505v.
[16] Idem, f.512r.
[17] AHN, Inquisición, leg.1648, exp.18, f.35v.
[18] SÁNCHEZ, Ana. Amancebados, hechiceros y rebeldes (Chancay, siglo XVII). Cuzco: Centro de Estudios Regionales Andinos Bartolomé de Las Casas, 1991, p.XXXIII.
[19] GRIFFITHS, Nicholas. La cruz y la serpiente: La represión y el resurgimiento religioso en el Perú colonial. Lima: Fondo Editorial de la Pontifícia Universidad Católica del Perú, 1998, p.151.
[20] AAL, Idolatrias, leg. III, exp.2, f.5.
[21] AAL, Idolatrias, leg.III, exp.1, f.6-10.
[22] AAL, Idolatrias, leg.IV, exp.5.
[23] AAL, Idolatrias, leg.VI, exp.8.
[24] Idem, f.179v.
[25] Bebida fermentada feita de milho.
[26] AHN, Inquisición, leg.1656, exp.4.

domingo, 19 de agosto de 2012

DOENÇAS MENTAIS ENTRE OS INCAS E GUARANIS NO SÉCULO XVII




Sabemos que grupos indígenas tratavam as doenças através de práticas mágico-religiosas aliadas ao uso de plantas medicinais e outros produtos. No caso das doenças mentais não foi distinto e nesta pesquisa procuramos vislumbrar nos documentos produzidos no período colonial do vice-reinado do Peru e do Brasil, que doenças mentais os Incas e os Guaranis conheciam e de que maneira as tratavam. O século XVII é importante para essa análise comparativa, pois os jesuítas receberam autorização do Papa Gregório XIII para praticar a medicina em 1576, exercendo-a em hospitais, comunidades e também nas reduções. As campanhas de Extirpação de Idolatrias no Peru começam nesse período e, entre outras coisas, perseguem aqueles que praticam a medicina-mágica, que é a mistura do uso de plantas medicinais e o ritual no processo curativo. Como o conhecimento jesuítico em relação a essas enfermidades e o processo de cura era distinto do indígena, neste estudo poderemos perceber também essas diferenças. Utilizando os documentos produzidos por jesuítas, as crônicas e ainda os processos de Extirpação de Idolatrias nos aproximaremos a essas práticas culturais que foram compartilhadas por indígenas e europeus no século XVII.
O uso de fontes do século XVI, XVII e XVIII nos proporcionam dados sobre como guaranis e incas trataram indivíduos com transtornos mentais, sendo que isso não significa que no período colonial tais enfermidades tenham recebido o mesmo diagnóstico e tratamento, visto que com a inserção das doenças européias em território americano e também a diferença existente entre a medicina praticada na Europa e aqui entre a população indígena, prevaleceu a preocupação em tratar as doenças conhecidas pelos europeus. O século XVII é o período áureo das reduções jesuítico-guaranis em território de colonização espanhola e portuguesa e também das campanhas de Extirpação de Idolatrias na região andina, o que nos permite vislumbrar na documentação, relativa ao período, maiores informações sobre as enfermidades indígenas e seus métodos terapêuticos.
A sociedade colonial, geralmente, associava as doenças mentais a distúrbios relacionados à ação do demônio ou a questões místicas e, portanto, eram desordens que deveriam ser combatidas. Para tal, usou-se inclusive dos tribunais de Inquisição e de Idolatrias, no caso da América espanhola, para julgar pessoas ditas alucinadas. Homens e mulheres que acreditavam ter dons especiais e que falavam com seres sobrenaturais foram alguns dos sentenciados a castigos severos.
No caso específico da cidade de Lima, sabe-se que os hospitais para espanhóis e indígenas, por exemplo, o hospital de San Andrés e o Santa Ana, tinham uma ala destinada aos considerados loucos, que deveriam ser separados da sociedade, bem como, os mendigos, miseráveis e os despejados. Nestes lugares, eram utilizados procedimentos de repressão, como asfixia por imersão, confinamentos longos, fome, castigos corporais e até sangrias que colocavam suas vidas em perigo, entre outros (BUSTÍOS ROMANÍ, 2009, pp.100-101).
Nos séculos XVI e XVII, a medicina espanhola estava estreitamente ligada à religião, sendo a maior parte dos médicos religiosos e a motivação para fundar hospitais estava relacionada à necessidade de fazer a caridade como maneira de espiar os pecados, conforme as crenças cristãs vigentes. Isso explica em parte, o desinteresse dos espanhóis em descrever as práticas indígenas, consideradas absurdas e manipulações demoníacas. No entanto, apesar do aparente desinteresse, os indígenas foram convocados para acompanhar os conquistadores espanhóis em batalhas, exatamente para usarem seus “modestos conhecimentos” na cura das feridas dos soldados.
Percebe-se com este estudo que no período colonial, especialmente no século XVII, sacerdotes europeus e curandeiros indígenas disputaram o domínio do processo de curas, sendo as práticas-mágicas, destes últimos, questionadas tanto nas reduções jesuítico-guaranis como pelos extirpadores de idolatrias no Vice-Reinado do Peru. Já o uso das ervas na terapêutica indígena não foi colocado em questão e acabou sendo apropriado pelos espanhóis, que se preocuparam em conhecer cada vez mais as suas propriedades, elaborando importantes tratados de herbolária e sua aplicação na medicina.
Entre os que contribuíram para a realização de estudos sobre as práticas curativas indígenas no vice-reinado do Peru, podemos destacar Nicolás Monardes (1569-1574), Bernabé Cobo (1653), Guaman Poma de Ayala (1615), Pedro Cieza de León (1553), Garcilaso de la Vega (1609), José de Acosta entre outros. Essas obras causaram importantes mudanças no uso de medicamentos, até então conhecidos por europeus, devido à descoberta de novas plantas e aos métodos de preparação indígena, que eram bastante adiantados em comparação à medicina ibérica.
No caso das reduções jesuítico-guaranis, as obras de Antonio Ruiz de Montoya, Antonio Sepp e as Cartas Ânuas da Provincia do Paraguay, entre outros documentos, fornecem dados sobre as práticas terapêuticas dos Guarani e as doenças por eles conhecidas. A chegada dos europeus ocasionou o aumento do número de doenças, obrigando os Guarani a reformularem suas atitudes diante da doença e da morte, o que segundo Eliane Fleck pode ser observado nos dicionários organizados por Montoya, que entre outros termos, destacam-se expressões relativas às epidemias e às reações dos Guarani frente aos resultados danosos de tais doenças (2005, p.76).
Para os grupos indígenas aqui estudados, Incas e Guarani, a doença possui características mágicas, sendo considerada resultado da ação de forças sobrenaturais e por isso, o tratamento necessariamente passava pela combinação de religião, ritual e prática curativa levadas a cabo pelos líderes espirituais desses povos. Os xamãs, mescla de sacerdote com médico e feiticeiro, eram os responsáveis por diagnosticar as enfermidades e usar de seu conhecimento herbolário para tratar os pacientes. No caso das enfermidades mentais, os cronistas nos fornecem menos informação até mesmo pelo número limitado de vocábulos que utilizaram para tratar esse tema. Os termos mais utilizados eram: ansiedade e aflição; medo patológico; loucura; melancolia e histeria.
No século XVI, grande parte dos europeus já sabia que as enfermidades mentais não resultavam da ação do demônio e por isso, os cronistas procuraram descrevê-las como doenças de certo modo comuns. Aqueles que conviveram com Incas e Guarani ficaram surpresos com seu amplo conhecimento de processos de cura através do uso de ervas e enumeraram algumas dessas doenças, bem como, que rituais e plantas eram utilizados na sua cura.


Para os europeus desse período a doença era resultante do desequilíbrio entre os 4 humores (teoria hipocrática), o sangue (presteza), a fleuma (frieza, racionalidade), a bílis amarela (raiva) e a bílis negra (melancolia) e seu papel consistia em usar de práticas que restabelecessem o equilíbrio. Tais práticas consistiam basicamente em sangrias, purgas, uso de poções e até mesmo, de rezas, relíquias e tantas outras terapêuticas consideradas mágicas, que podemos afirmar que a prática curativa dos religiosos se equiparou à dos xamãs. No entanto, estes foram acusados de feitiçaria e suas práticas repudiadas, enquanto as práticas dos religiosos europeus eram consideradas aceitáveis na sociedade colonial. Essa disputa entre religiosos europeus e curandeiros indígenas aparece nos documentos de extirpação de idolatrias, em algumas crônicas e também nas Cartas Ânuas. O conhecimento herbolário indígena foi adaptado pelos jesuítas e houve uma mescla de todo esse conhecimento, originando uma medicina avançada nas reduções jesuíticas guarani e também na região andina, em que parte da população era de origem inca.
A documentação que utilizamos em nosso estudo condena os rituais indígenas de cura, principalmente por destacar o caráter demoníaco dessas práticas. Para tratar uma doença, os índios conciliavam religião, magia e experiência prática. No caso específico das doenças mentais, os grupos aqui analisados conheciam diversos tipos e para cada um usavam determinadas plantas e rezas. Os dicionários e outros documentos produzidos por espanhóis e portugueses da colônia nos ajudam a uma aproximação ao tema, indicando alguns vocábulos referentes às doenças mentais, que nem sempre encontram correspondência em português. Nas traduções do guarani e do quechua  para o espanhol ou português aparecem termos como “delírio, loucura, possessão maligna, aflição, temor, demência, melancolia, tristeza, insanidade”, entre muitas outras. Nas crônicas e também nos processos de idolatria são abordados distúrbios mentais e como os xamãs os sanavam.
Encontramos nessa documentação colonial a relação de plantas utilizadas no tratamento de algumas desordens mentais, que podiam ser utilizadas em forma de colares ou para preparar bebidas a serem ingeridas pelo paciente. O tratamento consistia numa mistura de métodos mágicos e empíricos com uso de diversos vegetais, frutos, sementes e minerais, sendo que não é possível perceber pela documentação analisada, se havia também o uso de algum tipo de terapia. Como para a população indígena as doenças eram conseqüência de uma alteração nas relações com forças sobrenaturais, o tratamento passava necessariamente pela combinação de rituais mágico-religiosos e a ingestão de plantas medicinais, sendo que os atos ditos “mágicos” foram demonizados pelos espanhóis como já vimos.
O contato com documentação sobre curandeiros, métodos de cura, ervas medicinais, sobre a medicina espanhola e portuguesa, fundação de enfermarias e hospitais no período colonial e outros, nos permitiu usar a documentação para analisar a concepção de doença tida pelos indígenas, que se distinguia da visão espanhola principalmente por seu vínculo aos deuses e por isso, a necessidade de rituais. Procuramos entender por que a população indígena optava pela medicina tradicional ou mágica em dados momentos e em outros recorria aos hospitais fundados pelos europeus. Sabemos que os religiosos tinham por obrigação cuidar da saúde da população indígena, bem como, evangelizá-los, extirpar suas idolatrias e prepará-los para a nova estrutura colonial. Para tanto, desde o começo da colonização foram criados diversos serviços assistenciais para atender às necesidades mais prementes, visto que várias doenças oriundas do Velho Mundo afetaram a população nativa. Houve grandes problemas sanitários, devido à falta de resistência das populações locais à ação desses germes até então inexistentes nessa região. Isso causou uma catástrofe demográfica, levando à criação de diversos hospitais destinados ao cuidado dessa população. Desde 1533, são fundadas enfermarias e hospitais em distintos locais, mostrando também a existência de um intercâmbio científico, em que os espanhóis passaram a observar e utilizar métodos curativos da população indígena.
No caso específico das enfermedades mentais não foi distinto e o que pudemos perceber é que os documentos tratam de varias doenças e tratamentos que não necessariamente eram conhecidos pelos europeus.



sábado, 16 de junho de 2012

A ESPANHA NA ERA DOS DESCOBRIMENTOS


Ávila - Espanha

A Espanha do século XV era marcada por traços do medievo europeu e ao mesmo tempo estava à beira de renovações econômicas, culturais e políticas, que se fariam sentir nos séculos posteriores. Para compreendermos sua situação nesse período, necessitamos reportar-nos a fatos que compõem a história européia da época medieval.

A Europa medieval e renascentista: prenúncio da conquista da américa


Na Europa dos séculos XI a XIII houve grande desenvolvimento agrícola e comercial, pois a produção de cereais cresceu, ocasionando um aumento de mercados e feiras e, também, a ampliação da circulação monetária. No século XII surgiram as primeiras cidades que atingiram seu auge durante o século XIII. O crescimento populacional em demasia provocou uma crise alimentar, pois os produtos agrícolas não eram suficientes para abastecer todas as regiões, provocando a busca de tais produtos em outros mercados, a preço mais alto.
Nos séculos XIV e XV instalou-se a crise do modo de produção feudal, pois os períodos de fome (1315-1317 e 1346-1347) acarretaram sucessivas doenças. A Peste Negra (1347-1351) e as guerras que ocorreram nesse período, como a dos Cem Anos (1337-1453), provocaram a diminuição populacional na Europa[1].
Essa crise gerou a necessidade de expansionismo, levando à busca de novas terras e novos mercados que atendessem a demanda das cidades e do comércio. Com os descobrimentos do século XV ocorreu uma grande transformação nas concepções de tempo e espaço, pois apareceu o relógio que serviu para controlar todas as atividades cotidianas. No início, ele despertou desconfiança e ninguém queria se submeter a uma máquina, pois a luz e os sinos dividiam muito sabiamente o dia e a noite[2].
Durante a Idade Média ninguém se preocupava em medir o tempo, pois isso cabia a Deus. O homem desse período explicava os acontecimentos cotidianos como sendo desígnios divinos. Com o surgimento dos mercadores passou-se a necessitar de um controle do tempo e também do espaço, pois, conforme a distância a que ficassem os mercados, mais tempo se perderia e o objeto mercantil, o lucro, diminuiria.
Jacques Le Goff, analisando a concepção de tempo na Idade Média, fez uma diferenciação entre o "tempo da Igreja", regido pelo sino e pela oração, e o "tempo do mercador", que tinha o relógio para sua orientação. Gerou-se nesse período um conflito entre a Igreja e os mercadores, pois esta acusava os mercadores de utilizarem o tempo como objeto de lucro, e no entanto, segundo a Igreja, o tempo pertencia a Deus[3].
O conhecimento do espaço físico, geográfico e cartográfico foi de grande valia para facilitar as navegações a locais distantes, pois tendo o controle da distância a ser percorrida, os navegadores podiam calcular o tempo necessário para realizar a viagem, e conseqüentemente, saber a quantidade de produtos necessários para o abastecimento da tripulação.
Esse período foi marcado pelas grandes viagens e seus relatos propagaram-se por toda a Europa, graças ao aparecimento da imprensa, fazendo com que o homem dessa época passasse a sonhar com as maravilhas encontradas em outras partes do mundo.
As principais características dos navegadores dessa época eram a honra, a religiosidade, o fascínio por novidades, bem como o espírito de guerreiro, conquistador e herói. Esses homens estavam a serviço de Deus e do seu rei, por isso, seus espíritos aguerridos eram insuflados pela fé que os movia.
Nesse período, o tempo ainda era "controlado por Deus", ou seja, não importava quanto tempo se levaria numa viagem dessas, pois tudo era demarcado pela extensão do percurso. Por vezes, tais aventureiros nem sequer sabiam se algum dia retornariam a suas cidades, a curiosidade os levava para longe, o anseio por libertar-se do mundo feudal, a busca do romance cavaleiresco, do exuberante, isso bastava para que saíssem mar afora.
Eram homens de extrema coragem, pois nesse período não se buscava o "paraíso" sem temer o que poderia acontecer[4]. Uma extraordinária força de vontade movia os descobridores renascentistas. Para uns o mar representava um desafio, para outros, o medo. Mesmo assim, um grande número de aventureiros cruzaram os mares, apesar da forte crença que os acompanhava de que o mar era o lugar de medo, da morte e da demência, onde habitavam demônios e monstros e essa idéia não se modificou até as vitórias da técnica moderna[5].
"Por trás dessas crenças legendárias ou desses exageros assustadores, adivinha-se o medo do outro, isto é, de tudo que pertence a um universo diferente. Por certo, os aspectos extraordinários que eram atribuídos aos países distantes podiam também constituir um atrativo poderoso. A imaginação coletiva da Europa na Idade Média e na Renascença inventava, para além dos mares luxuriantes e luxuriosos, paraísos cujas miragens arrancaram para fora dos horizontes familiares descobridores e aventureiros. O distante - o outro - foi também um imã que permitiu à Europa sair de si mesma..." (Delumeau, 1989, p.54).

Os movimentos considerados inauguradores da Idade Moderna - o Renascimento, o Protestantismo, os Descobrimentos e a Centralização - são medievais. Conforme as afirmações de Hilário Franco Júnior, o primeiro buscou os modelos culturais clássicos já conhecidos na Idade Média. O Protestantismo não passou de uma heresia que deu certo. Os Descobrimentos também tinham suas bases medievais nas técnicas náuticas (construção naval, bússola, astrolábio, mapas), na motivação (trigo, ouro, evangelização) e nas metas (Índias, Reino de Preste João). Colombo, por exemplo, é considerado pelo autor, um homem medieval, pois tinha por objetivo a difusão do Cristianismo, acima da busca do ouro. Apenas necessitava dele para realizar uma Cruzada a Jerusalém. Queria chegar ao Oriente, pois para ele era lá que estava o Paraíso Terrestre. A Centralização Política era a conclusão de um objetivo perseguido por monarcas medievais[6]. O homem do Renascimento tinha muitas características medievais, como acabamos de analisar, porém, foi nesse período que surgiram as utopias que retratam o anseio por uma sociedade diferente.
"As Utopias da Renascença, por ex. Thomas Morus, a ilha Utopia, Campanella, a Cidade do Sol, ou a de Bacon, Nova Atlântida, deixam bem claro a influência de novas idéias filosóficas que estão surgindo, o aparecimento do Estado nacional e o descobrimento de novos mundos. A tudo isso, poder-se-á acrescentar que o aparecimento de uma nova consciência social teria sido impossível sem o insurgimento dos camponeses e burgueses contra o feudalismo. Face à nova forma de expressão de utopias, tais como o gênero literário da sátira, descrição de fantásticas viagens por outros recantos do mundo, como uma forma de expressar os projetos críticos de uma nova sociedade" (Sidekum, 1993, p.21).

Essas aspirações do homem renascentista de encontrar um paraíso terrestre impulsionaram cada vez mais os descobrimentos. O homem se voltou para o mar e a cidade é, acima de tudo, uma poderosa máquina econômica inteiramente voltada para o mar e o século XV transforma-se no "século do mar"[7]
A importância de encontrar-se novas terras cresceu e os mercadores foram expandindo seus negócios. Nesse período, imaginava-se o mundo tripartido, mas surge uma quarta parte, a América. Quando Colombo aporta em 1492 em terras americanas, gera-se uma grande mudança mental e econômica na Europa.
Antes de ser descoberta, segundo Edmundo O'Gorman (1992), a América já havia sido inventada, pois há muito os europeus aspiravam por um local onde  pudessem concretizar seus planos, como comprovam as Utopias da Renascença.
O Mercantilismo, "conjunto de idéias, seguido de uma prática política e econômica desenvolvida pelos Estados europeus na Época Moderna" [8] é amplamente difundido com o descobrimento. Não queremos afirmar com isto que o descobrimento da América se deu por motivos puramente econômicos. Os mercadores financiaram a realização dessa empresa e tinham por objetivo conseguir ouro e outras riquezas, mas por trás do interesse econômico estava uma grande mudança de mentalidade. Como apresenta Janice Theodoro da Silva, os "descobrimentos representavam uma grande oportunidade para os povos ibéricos concretizarem seus sonhos, construindo, reproduzindo e assimilando na América todo o processo cultural de que eram originários" [9].
J.H. Elliott afirma que foi a escassez de metais preciosos na Europa de fins do século XV que impulsionou as aventuras coloniais e os conquistadores foram recompensados, pois já nos primeiros anos haviam encontrado ouro nas Antilhas[10].
Existem diferentes teorias sobre os motivos que levaram os europeus a aventurarem-se pelo mar em busca de novas terras: uns apontam o fator econômico como principal força motriz e outros, a mudança da mentalidade européia, que via nos descobrimentos uma forma de realizar suas aspirações de ascenção social, de enriquecer e viver mais dignamente.

A Espanha dos Reis Católicos (1469-1516)


Fernando e Isabel


Durante o reinado de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, que uniram as coroas de Aragão e Castela através do casamento, a Espanha era um conjunto de territórios diversificados e não um único Estado.
Fernando e Isabel conseguiram pacificar os estados espanhóis, pois estavam presentes em todas as localidades às quais fossem chamados, tendo viajado muito por todo o reino. Tinham consciência de que a paz nas cidades era indispensável para manter o território articulado, por isso, fizeram alianças com as elites urbanas em cada reino[11].
No final do século XV, os estados espanhóis eram pobres e, enquanto numas regiões havia abundância de alimentos, em outras, as pessoas morriam de fome. A falta de unidade política era seguida da desunião econômica. Os Reis Católicos precisavam solucionar esses problemas. Então, em 1492, Cristovão Colombo, antes repudiado, recebeu a proteção de Fernando e Isabel, partindo para a sua primeira viagem, que culminou com a descoberta da América[12]. Com esse acontecimento começaram as modificações econômicas, políticas e sociais nos estados espanhóis, devido aos metais preciosos que passaram a circular em Castela.
Castela foi o reino mais importante entre os estados espanhóis desse período, pois tinha vários fatores a seu favor. A rainha Isabel formou um exército, desenvolveu a agricultura e o comércio, mandou codificar as leis de Castela ("Ordenanzas Reais") e através da centralização do poder tentou implantar o Estado moderno, o que beneficiou o crescimento de Castela[13]. Desse modo, Castela destacou-se e foi a responsável pela descoberta da América, pois daí partiram os anseios metalistas capazes de atender a uma sociedade em expansão.
Para a América foram aventureiros e, segundo Henry Kamen, os pioneiros não eram nobres e sim espanhóis pobres, muitos soldados, marinheiros sem emprego e alguns jovens de poucos recursos[14].
Francisco Solano acrescenta que a maioria desses colonos-soldados tinham já idade madura, eram voluntários e desenvolveram nas Índias o mesmo ideário religioso da luta medieval. Assim, a conquista é uma cruzada e o conquistador um cruzado, porque a cruz é o símbolo que acompanha sua ação[15].
No século XVI, os espanhóis consideravam-se o povo eleito e justificavam seu domínio sobre outros povos como sendo um desígnio divino[16].
Desse modo, Castela transformou-se na potência dominante do mundo, graças à América. Os Reis Católicos conseguiram manter os estados espanhóis articulados nesse período, mas começaram a sofrer com as graves tensões geradas pelas idéias de Reforma e Contra-Reforma. Mesmo assim, é...
"...un período extraordinariamente rico y variado de la historia de España, en el cual una sociedad medieval reorganizada y rearticulada, cada vez más expuesta a las influencias intelectuales exteriores, se vuelca hacia el exterior en busca de un imperio de ultramar y se encuentra a sí misma inserta en una misión imperial y eligiosa única" (Elliott, 1990, p.52).

Os espanhóis conquistaram a América e não necessitaram empregar grande esforço para isso, pois tinham vários fatores a seu favor. Francisco Solano (1988) defende a idéia de que foi a falta de armamento adequado por parte dos indígenas e a divisão tribal em etnias que facilitou a conquista. Guillermo Castillo (1988) remete à ação microbiana a culpa da derrota dos povos indígenas perante os espanhóis. Numa teoria que abarca mais fatores, Pedro Azancot (1988) inumera as diferentes enfermidades, a presença do cavalo e das armas e a introdução do gado europeu como elementos de destruição. A conquista da América é um episódio que merece um estudo mais aprofundado, não sendo, entretanto, esse nosso objetivo.

Considerações finais


Expusemos alguns dados sobre o contexto histórico da Espanha no período pré-conquista e no início do período colonial. Os conquistadores espanhóis, apesar de pertencerem à Idade Moderna, estavam imbuídos das categorias medievais, como a preocupação com a alma e o fanatismo religioso, o espírito de aventura e sua tendência a realizar-se em horizontes estranhos e embora tenham vindo em busca de ouro, ambição do homem moderno, não deixaram de lado a ortodoxia escolástica.
Esses homens que cruzaram o oceano em busca de sonhos, riquezas e movidos pela fé, depararam-se com um mundo novo, exuberante, em que puderam realizar seus planos de expansão. De uma Espanha conflituosa, sairam tais homens comuns, desprovidos de grandes ensinamentos, que no jogo da alteridade aprenderam a desvendar-se e a olhar o autóctone americano com admiração, repúdio, desconfiança ou até mesmo, com benevolência, sentimentos antagônicos próprios de um encontro cultural.


 

Bibliografia

ATTALI, Jacques. 1492. Lisboa: Teorema, 1991.

AZANCOT, Pedro A. Vives. Los conquistadores y la ruptura de los ecosistemas aborigenes. In: SOLANO, Francisco et al. Proceso histórico al conquistador. Madrid: Alianza Editorial, 1988.

CASTILLO, guillermo Céspedes del. Raices peninsulares y asentamiento indiano: los hombres de las fronteras. In: SOLANO, Francisco et al. Proceso histórico al conquistador. Madrid: Alinza Editorial, 1988.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente; 1300-1800 uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

ELLIOTT, J.H. La España imperial; 1469-1716. Barcelona: Editorial Vicens-Vives, 1987.

____________. España y su mundo; 1500-1700. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: nascimento do ocidente. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

KAMEN, Henry. Una sociedad conflictiva: España, 1469-1714. Madrid: Alianza Editorial, 1984.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média; tempo, trabalho e cultura no ocidente. Lisboa: Editorial Estampa, 1980.

MONTEIRO, Hamilton M. O feudalismo: economia e sociedade. 2.ed. São Paulo: Ática, 1987.

O’GORMAN, Edmundo. A invenção da América. São Paulo: UNESP, 1992.

PRODANOV, Cleber Cristiano. O mercantilismo e a América. São Paulo: Contexto, 1990.

SANCHEZ, Luiz Amador. Isabel, a católica. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1945.

SIDEKUM, Antônio. História e utopia. Vale do Sinos. São Leopoldo, 11 de jun., 1993, Sexta-Feira, pp.20-21.

SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e colonização. São Paulo: Ática, 1987.

______________________. Descobrimentos e renascimento. 2.ed. São Paulo: Contexto, 1991.

SOLANO, Francisco et al. Proceso histórico al conquistador. Madrid: Alianza Editorial, 1988.


[1] Monteiro, 1987, p.74.
[2] Silva, 1991, p.46.
[3] "O conflito entre o tempo da Igreja e o tempo dos mercadores afirma-se em plena Idade Média, como um dos acontecimentos maiores da história mental destes séculos, durante os quais se elabora a ideologia do mundo moderno, sob a pressão da alteração das estruturas e das práticas econômicas" (Le Goff, 1980, p.45).
[4] "No final da Idade Média, o homem do Ocidente continua prevenido contra o mar não apenas pela sabedoria dos provérbios, mas também por duas advertências paralelas: uma expressa pelo discurso poético, a outra pelos relatos de viagens..." (Delumeau, 1989, p.42).
[5] Idem, 1989, pp.50-51.
[6] Franco Júnior, 1992, pp.170-172.
[7] Attali, 1991, pp.64 e 70.
[8] Prodanov, 1990, p.14.
[9] Silva, 1987, p.13.
[10] Elliott, 1987, p.193.
[11] Kamen, 1984, pp.40 e 54.
[12] Idem, 1984, pp.89-99.
[13] Sanchez, 1945, pp.273-280.
[14] Kamen, Op. cit., 1984, p.155.
[15] Solano, 1988, pp.24-31.
[16] Elliott, 1990, pp.29.

terça-feira, 5 de junho de 2012

ESTUDOS ANDINOS NO BRASIL: SEMINÁRIO MULTIDISCIPLINAR


O evento será promovido pelo Centro de Estudos Ameríndios e pelo Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de São Paulo, nos dias 14 e 15 de junho de 2012, no anfiteatro do Departamento de História da FFLCH.

A programação e o caderno de resumos do evento podem ser encontrados em www.usp.br/cesta, na seção de Eventos.